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Os mitos sobre cérebro humano e o temor da inteligência artificial no Pint of Science

O último dia do Pint of Science 2017 em Campinas instigou a curiosidade do público que se espremeu para entrar no bar de jogos YoouGeek, localizado no Cambuí. A casa é pequena, mas foi desenvolvida uma estrutura para as pessoas se dividirem no primeiro andar e térreo, onde as que estavam mais distantes do palco acompanharam pelas televisões e áudio espalhados no ambiente todo decorado com elementos de jogos, tecnologia, anime e super heróis, que ornou bem com os bate papos científicos propostas na noite.

Isso porque a conversa começou com o tema “O cérebro amanhã”, mediada pelo neurologista Li Li Min, pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM Unicamp) e coordenador de educação e difusão do conhecimento do CEPID BRAINN, que pesquisa epilepsia e acidente vascular cerebral.

Confira o vídeo que sua equipe publicou convidando o público para a noite:

 

 

Como indicado na chamada para o evento, o diálogo se enriqueceu com a palestra “Skynet ou desemprego? - Fantasia ou Realidade no temor coletivo à Inteligência Artificial” conduzida pelo cientista da computação Eduardo Valle, pesquisador da Faculdade de Engenharia Elétrica e da Computação (FEEC) da Unicamp e membro do RECOD Lab, com pesquisas sobre aprendizado de máquina e foco na classificação de imagens e vídeos em larga-escala para aplicabilidade nas área de saúde e educação.

Dois temas que geram tantos mitos e presença na ficção científica, trouxe diferentes perguntas, que de um fio condutor, expandiu o debate para diversos assuntos correlatos, mas tentarei neste texto resumir os principais pontos dessa conversa tão ampla para quem não conseguiu participar. Lembrando que o evento ocorreu este ano simultaneamente em mais três bares na cidade (Alzirão, Echos e Lado B) e é um festival internacional que ocorreu em 11 países.

 

O cérebro do amanhã

Li Li Min começou sua fala na busca por engajamento do público e questionando quem no local tinha um cérebro e para quê o usava. Depois das respostas, cutucou o público com a sementinha da dúvida se todos estão satisfeitos com a produtividade dos seus cérebros. Um ponto, ao meu ver, interessante da discussão, já que aqueles cafezinhos fortes para nos deixar mais alerta - e tantos outros produtos - durante todo o dia condena quem diz que não quer mais produtividade.

Sabemos que a neurologia estuda diversos temas, como busca por tratamentos de doenças e acidentes, mas também há as análises que mostram como o cérebro está se adaptando, assim como já aconteceu antes, e o nosso cérebro está apresentando mudanças.

Uma das alterações que o neurologista apontou foi a questão sobre “Attention Span” ou “capacidade de atenção”. Ele questionou quanto tempo as pessoas presentes conseguiam manter suas atenções em alguma coisa; alguns responderam 30 segundos e ele elogiou, já que estudos recentes mostram que os humanos derrubaram suas capacidades de atenção dos 15 segundos para os 8 segundos, ou seja, inferior a de um peixinho dourado, que mantêm sua capacidade em 9 segundos (leia mais aqui).

Um dos motivos possíveis para esse crescente desfoque é o estilo de vida digitalizado e ágil que exige (ao mesmo tempo que as pessoas também desejam) cada vez mais informações para serem processadas pelos nossos cérebros. Afinal, o celular se torna cada vez mais uma extensão dos nossos cérebros, seja para conversar nas redes sociais, buscar ou armazenar mais dados como os números de telefones, algo não tão diferente do que ainda fazemos com o lápis e papel. (lembra da nossa resenha sobre Black Mirror? O episódio The Entire Story of You, discute sobre essas extensões de memória).

Min coloca o ponto que assim como a plástica era usada para tratar traumatismos de guerra, mas foi incorporada pela sociedade para melhorias estéticas, assim também pode ocorrer com o cérebro, que podem se prolongar com outras máquinas na intenção de ampliar suas interações e funções.

Apesar de tantos desmembramentos sobre o assunto (será que já estamos nos tornando cyborgs?), o médico conseguiu sanar diferentes mitos, como a obsessão sobre o tamanho do cérebro ser o diferencial do ser humano, quando até mesmo Einstein teria um cérebro menor que a média em questão de tamanho, mas com mais conexões; ou seja, a diferença são os nossos neurônios, mencionando até mesmo a pesquisa de Suzana Herculano que detectou uma média de 86 bilhões de neurônios no cérebro humano, sendo que no “segundo cérebro”, o nosso estômago, tem 100 milhões que controlam nosso apetite e humor e é maior que o de um gato.

Quer saber mais sobre o tema? Acesse o canal ABCérebro com os vídeos do professor Li Li Min e confira o vídeo sobre o novo livro do neurologista:

 

 

Skynet ou desemprego?

Se estamos falando das novas interações do ser humano com as máquinas, outro tema correndo na lateral é sobre os avanços da inteligência artificial, que gera o medo do surgimento de um exterminador do futuro, conforme trouxe para a roda o professor Eduardo Valle (FEEC Unicamp).

Esse é um dos temores da chamada singularidade, na qual inteligência artificial conseguiria se aperfeiçoar a ponto de produzir uma máquina melhor que ela mesma e assim por diante até que ela se torna infinitamente inteligente, como ilustrado no filme Her, Ex_machina e tantos outros.

No entanto, o pesquisador não considera a singularidade como o principal dos problemas atuais relacionados à inteligência artificial. Isso porque, apesar das tecnologias serem tão benéficas para nós, elas estão gerando problemas mais urgentes que a singularidade no futuro.

Por exemplo, Eduardo Valle explica para o público que hoje podemos separar os problemas da inteligência artificial em três classes: os tiradores de emprego, os seladores de destino e os matadores de gente.

A ideia das máquinas estarem ocupando os empregos de humanos já aconteceu antes e hoje se aperfeiçoa com casos como os carros totalmente automáticos, substituindo a mão de obra de motoristas de caminhões, ônibus e outros veículos. Fora os debates éticos sobre a responsabilidade da máquina em casos de acidentes e quem ela deveria salvar (o dono do veículo ou pessoas nas ruas), outro problema deixado de lado é que uma massa enorme de pessoas estão perdendo seus empregos.

O pesquisador não nega que a inteligência artificial também está criando novos cargos, mas o problema é que a conta não fecha e são mais desempregados que empregados nesse processo. Isso demonstra que a sociedade ainda não está preparada em questões de políticas públicas para a substituição de postos de trabalho pelas máquinas;.

Valle levanta que a questão não é preocupante apenas na perda de salários para manter as pessoas, mas também porque se trata de uma parcela da população que está apenas no caminho de perda de atividade, vivendo no vago, o que me remeteu a ideia do filme alemão “Somos tão jovens, somos tão fortes” (tradução livre de Wir sind jung. Wir sind stark), que trata dessa estafa e desespero da falta de atividades entre jovens na Alemanha pós-queda do muro, resultando em violência (filmão!).

Outro ponto importante levantado no debate é que a maioria das pessoas pensam que a inteligência artificial está tirando postos de trabalho “menos intelectualizados”, quando ela também já está atingindo profissões intelectualmente mais prestigiadas, como na área do direito, em que o advogado júnior é trocado pela máquina nos casos de pesquisa e análise de jurisprudência.

Mesmo o lado criativo acaba, aos poucos, sendo afetada por ela. Entre os exemplos podemos mencionar o Adobe Sensei, que já realiza trabalhos repetitivo de edição de imagens, ou o Watson Beat da IBM, que faz a pesquisa e filtra as batidas de uma música para ajudar os artistas a darem o tom que desejam. A inteligência artificial está também em postos dentro da academia, visto o caso do professor assistente robô na Universidade de Stanford (EUA), no qual os alunos não o distinguiram de um professor humano

Avançando nos problemas, Valle também explica que a questão dos seladores de destino são as máquinas filtrando nossos gostos e determinando o que vamos consumir ou não, ou seja, pode influenciar em nossas escolhas com as propagandas (leia também: A privacidade está morta?)

Já a questão das máquinas como matadores de gente se referem aos drones, que possuem filtros para tomada de decisões sensíveis e estão executando pessoas inocentes (leia mais aqui).

Eduardo Valle explica que como pesquisador se sente motivado a continuar estudando o assunto, porém, considera como “elegância humana” ou “empatia” se preocupar com essas questões sociais também. Mesmo que não exista solução palpável no momento, o primeiro passo é a discussão e compreensão do tema, por isso ele defendeu a ação de divulgação científica fora dos muros das universidades, como o Pint of Science.

Confira aqui a entrevista que fizemos no final do bate papo científico com Eduardo Valle:

 

 

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