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Os desafios para popularizar a ciência: Uma reflexão e contribuição para o debate

Diz-se que um certo dia, o famoso matemático inglês de origem libanesa, Michael Atiyah, aborrecido com olhares de soslaio da sua mãe sobre sua atividade de pesquisador, resolveu explicar-lhe a natureza da sua profissão. Após ter escutado atentamente as explicações do filho, a mãe teria proferido as seguintes palavras: “Agora sim, filho, entendi o que você faz… Mas diga-me uma coisa…” – indagou de imediato a mãe – “por que razão é que lhe pagam para você fazer isso?”

Esse suposto episódio familiar é, com frequência, proferido por professores e pesquisadores para ilustrar o desfasamento existente entre a sociedade e a ciência, bem como para caracterizar as dificuldades e limitações do trabalho de um professor ou pesquisador.

Com efeito, todos sabemos que o conhecimento científico é extremamente valioso para a sociedade. Sabemos, sobretudo, que é a partir do conhecimento que surgem as grandes transformações sociais e tecnológicas. Sabemos, ainda, que o conhecimento científico gerado por uma determinada sociedade, consolida o saber e desafia as estruturas sociais cristalizadas, muitas vezes tidas como verdades absolutas, promovendo o desenvolvimento e avanços da ciência.

Todavia, apesar de sabermos tudo isso, o conhecimento científico tem uma percentagem relativamente pequena de seguidores na sociedade mundial, quando comparado com outros tipos de conhecimento. Por exemplo, o conhecimento dogmático e o conhecimento mítico estão muito mais presentes nas sociedades contemporâneas. Em grande parte, isso deve-se ao fato de os pesquisadores sentirem diversas dificuldades para se apresentarem e veicularem os seus trabalhos fora dos seus círculos profissionais.

Comunicação: O advento das revistas científicas

No ano de 1655, acadêmicos franceses e ingleses acabaram por desenvolver versões impressas para distribuição das suas pesquisas, sendo, assim, considerados os precursores das revistas científicas (Meadows, 1998). Isso ocorreu pela necessidade em apresentar o trabalho científico que produziam.

Desde então, as revistas científicas evoluíram e têm vindo a proliferar em praticamente todos os domínios. Assumem uma função determinante na comunicação entre pares do conhecimento científico, tanto na forma impressa, como mais recentemente através da Internet em formato digital. Ao difundirem a ciência, as revistas também acabam por veicular uma parte da cultura de uma comunidade, de um povo ou de um país.

As revistas científicas atingiram o seu apogeu no século XX, potenciado pelo desenvolvimento tecnológico, com a crescente capacidade de computadores e software para receber, classificar, analisar, reproduzir e arquivar dados, auxiliando o processos de editoração (como as do Galoá).

Apesar da reconhecida importância dos periódicos e do seu crescimento exponencial nos últimos séculos  (pelo menos em número) estes, por si só, não são suficientes para veicular todo o conhecimento produzido pelos pesquisadores do mundo. Por um lado, isso ocorre porque as revistas, especialmente as mais cotadas internacionalmente, são muito concorridas e restritas. Por outro lado, porque os periódicos científicos  apresentam um processo demorado de submissão, revisão e, eventualmente, publicação.

Outro problema para permitir que as revistas científicas promovam mais avanços e mudanças sociais é que o seu público é muito específico e, por vezes, essas publicações são extremamente caras para se adquirir. Dessa forma, não são do conhecimento, ou interesse, geral, tornando-se inacessíveis mesmo dentro do ambiente acadêmico.

Acresce, ainda, que o mercado da ciência em geral, e principalmente o mercado universitário, mudou drasticamente desde o século XVII. Por exemplo, o Brasil tem atualmente milhares de instituições de ensino superior e polos de pesquisa espalhados por todo o território nacional, o que não acontecia até meados da década de 1930, quando foi instituída sua primeira universidade em São Paulo (Schwartzman, 2006).  

Por todas estas razões, as revistas continuam a ser um veículo preferencial de difusão da ciência entre pares, mas não são, de todo, a solução para a popularização da ciência.

Os periódicos científicos são conservadores e, não obstante o processo de avaliação cega por pares, os editores têm receio em lançar novos autores, especialmente os oriundos de instituições menos cotadas ou conhecidas.

Tendências do mercado editorial científico

O futuro das revistas, sobretudo das editoras, está sendo discutido em torno das questões abordadas na Budapest Open Access Initiative, realizada em 2002 e na Declaração de Berlim para o mesmo efeito. Existem tensões antigas entre os pesquisadores e as editoras, em torno do desenvolvimento do trabalho e dos resultados comerciais da ciência, que em pouco ou nada revertem para os seus produtores, excetuando o prestígio.

Esse movimento está a despoletar em caminhos  de publicação em acesso aberto, como revistas de acesso aberto e repositórios. Através de soluções desse tipo, eliminam-se alguns dos problemas identificados acima, contudo, surgem outras questões, designadamente de financiamento, qualidade da revisão por pares (ou mesmo de ausência da mesma) e, por último, a questão da qualidade em detrimento do número de publicações.   

Inaugurando a coluna no Galoá

Diante dessas mudanças, um caminho que as revistas científicas podem investir é na divulgação ou popularização da ciência para públicos menos especializados, demonstrando a importância da ciência para incorporação da sociedade e, quem sabe, fomentando novos avanços depois de completar esse ciclo da comunicação (como discutido nesta entrevista com Carlos Vogt).

É nesse quadro de transformação tecnológica e crescimento da comunidade científica, que reconheço o trabalho do Galoá como um espaço aberto de discussão científica, tanto pela diferença, como pela abrangência de projetos e propostas de apoio às instituições e aos pesquisadores, como presente na divulgação científica para o público em geral promovida neste blog.

Assim, quando recebi o convite para assinar mensalmente uma coluna de reflexão científica no blog, aceitei de imediato e sem reservas o desafio.

Nos próximos meses, procurarei contribuir para a comunidade escrevendo sobre temas diversos, tanto da minha área de investigação (a gestão, administração e os negócios), como sobre assuntos que me interessam profissionalmente, como: i) a ciência em língua portuguesa; ii) o mercado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP); e iii) sobre o mercado editorial científico.

A justificação para a escolha desses temas, prende-se com o fato de dirigir a E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP, cuja missão é resumidamente contribuir para a formação de redes científicas de língua portuguesa, com impactos diretos na sociedade.

Dessa forma, espero nos próximos meses contribuir para uma reflexão conjunta com os colegas e leitores sobre as temáticas acima e evoluir na compreensão de cada um desses temas.

*Eduardo Leite é doutor em administração pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Portugal e editor da E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP.

Referências

Budapest Open Access Initiative (2002). Disponível em http://www.soros.org/. Consultado em dezembro de 2016.

Meadows, A. (1998). Communicating Research. San Diego, Ca: Academic Press.

Schwartzman, S. (2006). A universidade primeira do Brasil: entre intelligentsia, padrão internacional e inclusão social. Estudos Avançados, 20(56), 161-189. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142006000100012