Ciência

Qualis Periódicos, quando surgiu e como funciona?

Todo pesquisador brasileiro já ouviu falar sobre o Qualis Periódicos. Mesmo os alunos de pós-graduação (às vezes até os de iniciação científica) acabam esbarrando nesse conceito no momento de definirem com seus orientadores quais revistas científicas seriam mais adequadas para publicarem os resultados de suas pesquisas.

Por mais críticas que existam a respeito do “Novo Qualis” (que neste texto explicaremos  o que é, mas não entraremos em ampla discussão), ele continua sendo preocupação para pesquisadores na hora de publicar seus artigos e também de editores científicos durante o processo de editoração de seus periódicos, conforme apontam Mônica Frigueri e  Marko Monteiro em artigo publicado na Estudos de Sociologia. Isso porque o Qualis classifica as revistas brasileiras entre as que têm mais “qualidade” para sua área ou campo do conhecimento.

O Qualis Periódicos

Devido a alta demanda para entender o que é o Qualis de revistas científicas , resolvemos resgatar brevemente sua história e características de cada classificação. Antes de mais nada, devemos lembrar que com a expansão dos cursos de pós-graduação no Brasil por volta dos anos 1970, influenciou nas iniciativas de políticas públicas que incentivassem a publicação científica no país, dando origem aos primeiros programas de fomento a periódicos brasileiros pelo CNPq e pela Finep a partir dos anos 80.

Ainda hoje, a maioria dos periódicos nacionais estão vinculados a programas de pós-graduação, isso porque as revistas surgiram próximas aos cursos de pós-graduação como estratégia de dar vazão e comunicar entre pares o que é desenvolvido nas universidades e demais instituições brasileiras.

Esses movimentos foram base para o grande aumento dos títulos de revistas científicas, sendo importante a inauguração de critérios que indicassem a importância de cada revista para a sociedade científica, tanto para conhecimento dos pesquisadores e quanto para seleção de quais publicações receberiam fundos de fomento para se sustentarem e continuarem ativas.

Apesar de muitas agências de fomento manterem seus próprios critérios de seleção,  a necessidade de um “controle de qualidade” deu origem ao Qualis da Capes, que em sua essência faz parte da avaliação de pós-graduação no país pela Capes, já que, como mencionado, grande parte das revistas brasileiras estão vinculadas a esses cursos.

Quando surgiu o Qualis?

O Qualis Periódicos surgiu em 1998 após uma coleta de dados que indicaria “cartografia da produção científica brasileira”. Isso porque, a convite da Capes, uma comissão de especialistas estrangeiros avaliaram de 1996 a 1997 uma metodologia trienal de avaliação, para essa metodologia, é essencial o envio de relatórios sobre quais periódicos os pesquisadores mais publicaram dentro do triênio analisado.

Com essa relação de revistas, comissões científicas divididas por áreas da Capes classificavam em níveis A as revistas de abrangência internacional, B os periódicos com foco no público nacional e C os títulos com abrangência local, fora outros critérios que cada comitê de área mantinha seu crivo de análise, como periodicidade, corpo editorial, sistema de avaliação por pares, normalização, indexação, entre outras características.

Essa primeira versão do Qualis para revistas se manteve até 2006, pois o triênio seguinte a Capes inaugurou o “Novo Qualis” (atualmente não tão novo assim) em 2008, modelo ainda vigente.

(Imagem retirada de Gazeta do Povo)

Como funciona a classificação do Qualis em revistas e periódicos?

O atual modelo de avaliação do Qualis Periódicos começou a vigorar para o triênio de 2007/2009. A Capes tem acesso às informações anuais que os programas de pós-graduação inserem na Plataforma Sucupira para rastrear onde os pesquisadores estão publicando. Após ter esse conjunto de revistas no triênio, elas são divididas por estratos segundo critérios de cada comitê científico de área.

O estrato mais elevado é o A1, seguido por A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, sendo este último com peso equivalente a zero para sua área de ensino, conforme exposto pela Capes:

  • A1 = 100 pontos
  • A2 = 85 pontos
  • B1 = 70 pontos
  • B2 = 55 pontos
  • B3 = 40 pontos
  • B4 = 25 pontos
  • B5 = 10 pontos
  • C = 0 pontos

Um dos grandes debates sobre esse modelo do Qualis são os critérios que cada área aplica na avaliação dos periódicos e que não correspondem à realidade da produção científica brasileira. Fora que há um limite de revistas que podem estar em altos estratos, ou seja, supondo que no estrato mais elevado só seja possível ter duas revistas, mas tenho nessa área três revista de igual relevância, uma delas terá que ser “rebaixada” por meio de critérios mais rígidos de análise.

Para deixar mais claro, isso acontece porque o número total de revistas classificadas como A1 (nível mais elevado) deve sempre ser inferior ao número total de revistas classificadas como A2. Outro ponto que estreita ainda mais as revistas no estrato A é que os periódicos com A1 + A2 devem atingir no máximo 25% do total de revistas da sua área do conhecimento.

A restrição não para no estrato A. Se for somado o total de revistas A1 + A2 + B1, o total deve ser no máximo o valor de 50% do total de periódicos de sua área, dessa forma B2 + B2 + B3 + B4 + B5 representam os outros 50%, já que o ideal é que não existam revistas mal avaliadas com C. Deve-se ressaltar que não é obrigatório preencher todos os estratos, apenas que as porcentagens não ultrapassam a regra básica:

  • A1 < A2 sendo que A1 +A2 = 25% do total de revistas
  • A1 + A2 + B1 = 50% do total de revistas

Como agora se torna mais difícil classificar uma revista como A1, cada comitê científica de área adota indicadores mais rígidos. Como, por exemplo, em alguns campos da Exatas e Biológicas que a revista deve ter um bom Fator de Impacto, medido pela Institute for Scientific Information da Thomson Reuters e publicado no Journal Citation Reports. Isso indica que uma das tendências das regras de seleção para se ter o nível mais alto de qualidade é a  internacionalização do periódico, (tema discutido em nosso blog, confira aqui).

Todos esses aspectos e normas sobre o Qualis Periódicos ainda gera muita discussão sobre qual “qualidade” ele busca avaliar, mas isso deixamos para um próximo papo.

Caso queira conferir o Qualis das revistas, acesse a Plataforma Sucupira ou se tem dúvidas ou curiosidades sobre os critérios usados em seu campo científico, entre em contato com as comissões científicas da Capes.

(Imagem retirada de Comunicação e Consumo)

Fontes:

CAPES. Classificação da produção intelectual, 01 de Abril de 2014.

CAPES. Critérios de classificação Qualis – Ensino, s/d.

FRIGUERI, M.; MONTEIRO, M.S.A. Qualis Periódicos: indicador da política científica no Brasil? Estud. sociol. Araraquara. 2014, v.19, n.37, p.299-315

JACON, M.C.M. Base Qualis e a indução do uso de periódicos da área de Psicologia. Transinformação [online]. 2007, vol.19, n.2, pp.189-197

Rocha-e-Silva, M. Carta Aberta ao Presidente da Capes: o novo Qualis, que não tem nada a ver com ciência do Brasil. Pró-Fono Revista de Atualização Científica. 2009, vol. 21, n.4, p. 275-278

SAN MARTIN, J. Publicar em inglês? Alcance, comunidades e outras questões da língua em que publicamos, s/d.

STUMPF, I. R. Revistas Universitárias: Projetos Inacabados. 1994. Tese (Doutorado) – Curso de pós-graduação em Ciência da Comunicação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.