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Qual a importância de se fazer um pós-doutorado?

Primeiramente, é essencial definirmos e caracterizarmos o pós-doutorado. Portanto, o pós-doutorado, o qual inicia-se após o doutorado, é um estágio realizado por recém-doutores com menos de 10 anos desde a defesa de tese. Nesse estágio, o recém-doutor irá aprofundar os seus conhecimentos em um determinado tema de pesquisa.

O período de duração varia de país para país, podendo ser de 6 meses a 6 anos. No Brasil este período pode ser de, no máximo, 2 anos (excetuando-se as bolsas do Programa Nacional de Pós Doutorado/PNPD da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/CAPES) e, em Portugal, chega aos 6 anos. Nessa fase da carreira acadêmica, o pós-doutorando não precisa cursar disciplinas ou defender algum tipo de tese. Ele está voltado exclusivamente à pesquisa.

Também não há a figura de um orientador, mas sim de um supervisor, o qual é, também doutor, mas com uma maior experiência acadêmico-científica. Caberá a ele, portanto, auxiliar o postdoc no andamento de sua pesquisa. O postdoc irá desenvolver uma pesquisa aplicada e, em alguns locais, este pesquisador, que passará a ser chamado de estudante de pós-doutoramento, será, por exemplo, convidado a dar cursos, palestras e orientar ou co-orientar alunos de mestrado e doutorado. Obviamente que isso poderá variar de país para país e até mesmo de universidade para universidade.

Portanto, deve-se aproveitar o pós-doutorado para aprofundar os conhecimentos científicos, orientar alunos e desenvolver e praticar a elaboração de projetos que possam financiar não só a sua própria pesquisa, mas também do grupo em que ele está inserido.

Infelizmente, algumas vezes os pós-doutorandos se tornam mão-de-obra altamente qualificada para os seus supervisores, ou seja, limitam-se a organizar relatórios, a redigir manuscritos que estavam a longos anos parados e, por fim, tornam-se secretários de luxo. Ainda nesse contexto (e para frustração), muitos doutores usam o estágio de pós-doutorado como “quebra-galho”, ou seja, ficam à espera de um concurso, sem fazerem grandes esforços para avançarem intelectual e academicamente.

 

Charge sobre atividades de um postdoc produzido por Jorge Cham do PHD Comics

 

Não cabe a mim julgar os fatores que podem acabar por levar uma pessoa a fazer um pós-doutorado, mas sim, tentar deixar elucidado que é um período que deve ser aproveitado da melhor maneira possível – “Fazer por fazer” ou “A bolsa é muito interessante” não devem ser os fatores dominantes de escolha.

O pós-doutorando deve, sim, ter responsabilidades. Ele deve ser estimulado a buscar a excelência, e nisso incluem-se a elaboração de propostas de financiamento, a realização de networking com outros pesquisadores da sua área, entre outras iniciativas já citadas anteriormente. É o momento para desenvolver a maturidade da escrita científica, do pensamento crítico quanto ao “O que é fazer ciência?”.

Em muitos países europeus e nos Estados Unidos, por exemplo, o postdoc é visto como um pesquisador associado porque é quando ocorre o amadurecimento, fortemente incentivado por professores/pesquisadores mais experientes. O motivo disso ocorrer é que nessas instituições compreende-se que ao final do doutorado, os doutores ainda carecem de uma maior experiência acadêmica, por isso não estão totalmente preparados para a carreira científica. Obviamente, que há e sempre haverão exceções à regra. Ainda, por vezes esse incentivo não se limita a fazer apenas um, mas alguns pós-doutoramentos em diferentes instituições e grupos de pesquisa – quanto mais, melhor. Obviamente que, volto a reforçar, é preciso aproveitar o período para se aprimorar no campo científico.

Se por um lado o pós-doutorado pode trazer vantagens e aperfeiçoamentos, por outro podem haver consideráveis desvantagens, ainda mais quando o(a) doutor(a) não desejar o ingresso em uma carreira acadêmica, e sim se direcionar para o mercado ou indústria. Exemplo disso é o texto escrito pelo jornalista Devin Powell, intitulado “The price of doing a postdoc”, no qual são apresentados alguns dados, entre outros trabalhos, que mostram o quão desvalorizado em termos financeiros é um postdoc ao comparar com quem ingressou diretamente no mercado de trabalho, sem a realização do estágio.

Aliás, o texto aponta um erro comum entre os postdoc, pois muitos deles abrem mão de ganhar mais pela possibilidade de desenvolver as suas pesquisas de uma maneira livre, sem impedimentos. No entanto, no mesmo texto, verifica-se que a longo prazo isso poderá não ser uma boa escolha.

Já na academia, o fazer um pós-doutorado é importante, mas, ainda, pouco valorizado. A começar por sua não inclusão em editais de concursos – são poucos os que já adicionam na planilha de análise de currículo esta etapa de aperfeiçoamento. Em seguida vem a não compensação financeira e o não reconhecimento institucional, pois em muitos dos casos, os pós-doutorandos acabam por trazer importantes colaborações científicas e acadêmicas para a instituição em que estão inseridos. Este cenário deveria mudar, visto que isso não só incentivaria aos demais professores/pesquisadores a buscarem um postdoc, mas também e, inevitavelmente, traria investimentos, colaborações e acordos bilaterais entre instituições, grupos de pesquisa e agências de financiamento para a ciência e tecnologia.

Em outras palavras, o postdoc é um período de intenso treinamento e aperfeiçoamento que poderá levar à excelência, desde que bem executado e supervisionado. Jeremy Yoder, pós-doutorando na University of British Columbia no Canadá, em seu texto escreve “A postdoc should be an expression of love for the pursuit of knowledge. Times being what they are, it must also be an expression of hope”, que em uma tradução livre diz “Um pós-doutorando deveria ser a própria expressão do amor pela busca do conhecimento. Apesar dos dias atuais serem o que são, isso deve ser uma forma de termos esperança”.

Aproveitando-me da reflexão de Yoder, termino a coluna de hoje destacando que a importância de se fazer um pós-doutorado está na necessidade de se buscar um amadurecimento acadêmico-científico e a essência disso tudo estará no desejo, anseio e amor pela busca de conhecimento.

 

Leitura adicional

Powell, D. The price of doing a postdoc, 2017. Disponível em: http://www.sciencemag.org/careers/2017/01/price-doing-postdoc

Yoder, J. So, What Is a Postdoc?, 2015. Disponível em: https://chroniclevitae.com/news/1130-so-what-is-a-postdoc

 

*Alexssandro G. Becker é biólogo e atualmente pós-doutorando do Centro de Ciências do Mar, da Universidade do Algarve (UAlg), Faro, Portugal. É Coordenador Geral do Núcleo de Alunos Brasileiros da Universidade do Algarve (NUBRA) e de Projetos da BRASA Grad. Atua também como membro voluntário do Conselho de Cidadãos do Consulado-Geral do Brasil em Faro (ConCid-Faro) e é Co-idealizador do blog BrandoBe.

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