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Da patologização da vida à Paleontologia

Sempre buscando abordar temáticas atuais e relevantes em sua programação, o Pint of Science 2017, em Campinas, proporcionou ao público do Echos Studio Bar uma interessante conversa sobre o uso cada vez mais frequente de psicotrópicos por jovens, adultos e crianças nos dias de hoje.

Isso porque o segundo dia de festival internacional de divulgação científica começou com a palestra da pediatra e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM Unicamp), Maria Aparecida Affonso Moysés, que impressionou a todos ao trazer dados alarmantes do consumo dos fármacos metilfenidatos, popularmente conhecidos como Ritalina.

Para se ter uma ideia em números, de 2004 a 2014 o consumo de Ritalina, também conhecida como metilfenidato da família das anfetaminas, aumentou 775% no Brasil. Isso porque muitas pessoas estão usando a medicação indiscriminadamente, o que pode causar diversos efeitos colaterais, como má formação física entre as crianças.

Ao longo da palestra, a pediatra falou abertamente sobre o uso de drogas psicoativas, sem moralismos e hipocrisia, a fim de explicar o funcionamento da Ritalina no organismo das pessoas: do mesmo modo que qualquer outro estimulante, o metilfenidato atua no corpo humano em um processo artificial de liberação de dopamina, o qual provoca reações adversas e pode acabar em uma drogadição.

Mas se há efeitos colaterais e o perigo do vício, por quê ainda insistimos no uso deste tipo de medicamento? Esse foi um dos principais pontos discutidos pela professora durante sua fala, na qual fez questão de destacar a ineficiência e banalização do atual diagnóstico de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), principal causa da prescrição de Ritalina.

Em tom irônico e lúdico, a pediatra e militante do movimento Despatologiza intrigou os participantes do evento ao pedir para que respondessem o questionário utilizado no diagnóstico do transtorno. Tal atividade ilustrou bem o que ocorre na maioria das clínicas e hospitais atualmente; Moysés foi bastante enfática, também, ao afirmar que os sintomas considerados problemáticos nos pacientes não se tratam de casos isolados, mas, sim, representações de sensações coletivas, as quais refletem perturbações de cunho social que acabam sendo patologizadas (saiba mais sobre o tema aqui).

Após uma série de perguntas feitas por educadores, usuários de Ritalina e curiosos, a palestrante se despediu do palco, ao som de uma longa salva de palmas, para dar espaço à geógrafa e pesquisadora do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, Frésia Ricardi Branco. Depois de praticamente uma hora de discussão farmacológica, o tema da vez foi sobre paleontologia, mais precisamente as grandes extinções que ocorreram em nosso planeta ao longo dos últimos 540 milhões de anos.

Dando sequência à programação da noite, a geóloga fez uma breve explicação sobre cada uma das extinções em massa que já aconteceram no planeta Terra e investiu na interação com o público para levantar o debate acerca do que ainda está por vir. A palestrante entreteu e surpreendeu a todos ao trazer alguns fósseis e passá-los para a plateia, mostrando que a extinção acometeu a inúmeras espécies muito antes dos dinossauros serem extintos.

Em clima acalorado, a palestra rendeu várias discussões polêmicas sobre a  possibilidade de extinção da raça humana e, ao abrir para as perguntas, alguns participantes debateram a questão apresentando e defendendo diferentes teorias sobre o tema, o que trouxe à tona a essência da ciência: a pluralidade de visões sobre o mesmo objeto de estudo.

Se quiser saber mais sobre os debates paleontológicos promovidos por Frésia Ricardi Branco, confira seus posts de divulgação científica no blog PaleoMundo.

O Pint of Science Campinas ocorreu simultaneamente em outros 3 bares na noite de terça e o evento seguiu ainda por mais um dia, sendo finalizado na quarta-feira, 17/05. Confira nos links a nossa cobertura durante do festival em Campinas.

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