Ciência

Como a saúde mental interfere no bloqueio de escrita na pós-graduação?

O final de outubro se encerrou com uma palestra, que chamou bastante atenção nas redes sociais, organizada pelo Centro de Assessoria de Publicação Acadêmica (CAPA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tratava-se de uma conversa com o psicólogo e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Robson Cruz, que fomentou o debate sobre “Saúde Mental e o bloqueio da escrita na pós-graduação: Questões teóricas e práticas para uma vida acadêmica mais satisfatória”.

Para se ter ideia de quanto o tema é de interesse corrente no meio universitário e acadêmico, a organização comentou que não realizou nenhuma ampla divulgação fora a criação de um evento no Facebook que, por sua vez, contou com mais de 9 mil interessados no tema, entre pesquisadores e estudantes de graduação.

Isso aconteceu porque, mesmo com a palestra agendada para acontecer em Curitiba, a organização disponibilizou a transmissão ao vivo via YouTube, que somaram até o dia seguinte da transmissão 2,021 visualizações. O número de pessoas interessadas pode ser um indicativo de como é preocupante os crescentes casos evidenciados de psicopatologias (estresse, ansiedade, depressão, etc) desenvolvidas pelas pressões acadêmicas entre os estudantes e pesquisadores brasileiros, sendo evidenciados por diversas campanhas como a hashtag #NãoÉNormal que circulou em diferentes redes sociais, como apresentado no vídeo de Murilo Araújo do canal Muro Pequeno:

 

 

Como consequência desses abalos mentais, um dos problemas mais comuns relatados pelos pesquisadores e graduandos atendidos por Robson Cruz é o bloqueio de escrita de suas pesquisas, seja ela materializada em artigos científicos para eventos ou periódicos, trabalhos de conclusão de cursos (TCC), dissertações de mestrado ou teses de doutorado. A fim de amenizar esse problemas o psicólogo apontou possíveis causas e caminhos a se tentar, como apresentaremos neste texto.

Nessa linha, Robson Cruz explicou que antes de mais nada é importante que a pessoa compreenda que o bloqueio da escrita não está nela e sim em causas psicossociais; ou seja, o problema não está na pessoa com a dificuldade e sim em diferentes causas que estão influenciando mentalmente seu processo. É necessário ter conhecimento disso porque a maioria das pessoas enfrenta esse bloqueio como se fosse algo individual ou como se apenas ela não fosse “capaz” de prosseguir com a escrita, como a “síndrome do impostor” presente nos corredores da academia, posicionamento que não ajuda no tratamento e desbloqueio da escrita.

 

Lápis apontado e folha em branco

 

Faça rascunhos e treine sua escrita

Um ponto importante para se ressaltar da fala do psicólogo especialista na organização psicossocial da escrita acadêmica, é que ao contrário do que muitos acreditam, saber as regras e gramática portuguesa pode ser a causa do problema, pois a pessoa acredita que já tem que saber escrever um texto sem revisões, o que não é verdade. Isso justificaria o porquê a maioria das pessoas que passam por bloqueios de escrita costumam ser da área de humanidades.

No entanto, o que poucos se atentam é que a escrita é um processo que está a todo momento se aperfeiçoando, logo, ele é feito por etapas. É bem improvável que a primeira versão esteja perfeita, sendo que se deve ser motivado o desenvolvimento de rascunhos e diferentes versões até se chegar no texto final, o que demanda tempo e um trabalho artesanal para tornar a escrita confortável.

Para compreender melhor como é importante valorizar o processo da escrita e explicar isso para nossos pares e orientadores, Robson Cruz exemplifica o caso de um paciente que é um músico de alta performance: Em sua vivência profissional, o músico estava acostumado a ensaiar para escrever, por isso, produzia muitos rascunhos antes de chegar a uma versão final. Porém, ao entrar no meio acadêmico, muitos pares não compreenderam como seu texto era construído e não aceitaram debater apenas rascunhos. A pressão acadêmica em silenciar os debates durante o processo de escrita desenvolveu um problema generalizado em que o músico colocou em dúvida se ele era realmente um bom músico, já que necessitava de muitos ensaios até chegar a versão final.

 

Separe a edição da geração do texto

Ainda na mesma linha condutora de que é necessário criar rascunhos, o psicólogo aconselha estratégias para “diminuir a distância” entre os pensamentos e do texto materializado. Um dos motivos que durante sua palestra Robson Cruz aconselha o desapego da edição enquanto o texto está sendo produzido a fim de permitir uma escrita mais livre e menos preso às regras gramaticais.

Todo esse processo, ele caracterizou como a pré-escrita do texto, quando o autor vai ler mais sobre o tema, rascunhar, fazer fichamentos, quem sabe até fazer um diário sobre sua pesquisa. Como o diário é um material informal, estará livre da pressão social de retaliações, já que somente a pessoa irá ler e poderá ordenar seus pensamentos e seu texto.

Na fala do psicólogo especializado em escrita acadêmica, ele apresenta que normalmente os trechos em que a pessoa mais trava para desenvolver costumam ser os mais interessantes, por isso, mesmo que ela não consiga escrever, o autor pode redigir no trecho o porquê não consegue escrever e o que desejaria ter naquele trecho. Essa estratégia permite que naquele momento ou em outra leitura o pesquisador consiga compreender melhor o que e como queria escrever aquele assunto.

Permitir-se a ter imprecisão para lapidar a ideia para se chegar ao texto finalizado é importante para se ter e manter uma boa saúde mental, compreendendo também que a rejeição de um texto não é a prova de que está ruim, mas sim que precisa melhorar. Lembrando da literatura, o psicólogo recorda que muitos autores consagrados tendem a desenvolver muitos rascunhos no seu período de pré-escrita e que o mesmo pode ser levado para a acadêmia.

Com isso, o psicólogo apresenta que a escrita não vem apenas como uma inspiração, como muitos românticos acreditavam, mas é um processo, um trabalho a ser desenvolvido e valorizado, ciente da importância dos debates, revisões e ensaios, como acontece em outras atividades musicais e esportistas, as quais as pessoas treinam e repetem a atividade diversas vezes.

Faz parte desse trabalho artesanal também organizar as atividades de uma pós-graduação em uma rotina para se evitar esses bloqueios e o agravamento dos problemas emocionais e psicológicos; isso no sentido de montar uma rotina com horário fixo e metas pré-estabelecidas. O psicólogo aponta que há casos em que os pós-graduandos acreditam que se lidarem com as atividades do programa como lidava em uma disciplina da graduação, o resultado será o mesmo, mas a rotina é diferente e é necessário mais organização.

 

Moça estudando frente ao computador de noite

 

Evite longos blocos de tempo para escrever

Um dos principais problemas apontados por Robson Cruz em sua palestra são os longos blocos dedicados à escrita que muitos pesquisadores fazem, como reservar um final de semana para maratonar a escrita de um capítulo ou de um artigo, o que acarreta o fato de que a pessoa não terá tempo para o lazer, família e amigos.

O psicólogo alerta que é até possível que o aluno consigo completar suas metas, principalmente no início de sua carreira e na graduação, mas essa estratégia está traumatizando seu processo de escrita, o qual pode haver a generalização de que a escrita acadêmica está ligada a sacrifícios e sofrimento, por isso que é comum encontrar doutorandos que tiveram um declínio da escrita científica, sendo que a tendência é piorar o quadro, caso não haja intervenção e tratamento.

A todo momento da palestra, o psicólogo da PUC-SP reforça que cada caso tem suas próprias causas e consequências, sem ignorar problemas já bem discutidos como o produtivismo acadêmico, que força todos os pesquisadores a produzirem cada vez mais em volume e não tanto em qualidade, ou do problema geracional discutido pelo sociólogo Zygmunt Bauman, e que também pode ser usado para compreendermos os problemas de escrita acadêmica. Isso significa que os atuais jovens e jovens adultos cresceram na base do imediatismo e menos resistentes às frustrações e rejeições, o que contradiz o processo de escrita acadêmica que é mais demorada e necessita de muitas revisões com conteúdos que serão rejeitados.

 

A escrita é um ato social e não individual

Durante sua palestra, o psicólogo também destacou que a maioria dos pesquisadores em início de carreira não sabem como seus pares trabalham, o que ajuda a reforçar o falso pensamento de que somente eles têm problemas com a escrita de seus textos.

Devemos incentivar mais o diálogo durante o processo de escrita e aceitar que outras pessoas podem enriquecer em nossos textos.

Sobre esse tópico, Ron Martinez, professor e pesquisador do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPR e idealizador do CAPA que organizou a palestra, explica que no Centro de Assessoria de Publicação Acadêmica se é desenvolvido atividades nesse sentido chamado de Dia da Produção, quando algumas pessoas se reúnem para trabalharem juntos em suas pesquisas.

 

Meme de casal na rua que o homem olha para outra moça, representando o aluno que se desfoca para Netflix ao invés de cuidar de sua monografia

 

O Dia da Produção do CAPA da UFPR funciona da seguinte forma: a pessoa compartilha com outra qual é o seu objetivo de escrita naquele dia e em certos períodos do dia compartilha com algum colega quais estão sendo suas evoluções ou dificuldades, pedindo orientação dos monitores caso tenha “travado” em alguma parte.

O diretor do CAPA diz que muitos pesquisadores retornam para essa atividade, pois a escrita coletiva vem produzindo mais resultados do que a solitária.

Outro ponto importante que Robson Cruz resgata nesse pensamento de escrita coletiva e compartilhamento de informações, é para quem estiver auxiliando não ser apenas o crítico que aponta as falhas e onde o texto tem que melhorar, mas também seja a pessoa que irá incentivar o autor e dar um feedback dos pontos positivos do texto e no quê já melhorou, assim, os pesquisadores conseguem perceber com mais facilidade que a escrita é um processo em evolução e com o tempo ela vai ganhando forma e conteúdo.

 

Foto de um dia de produção do CAPA UFPR

 

Iniciativas desenvolvidas pelo CAPA

A palestra do psicólogo Robson Cruz que aconteceu na UFPR foi incentivada pelo Centro de Assessoria de Publicação Acadêmica (CAPA) da universidade, o primeiro writing center do Brasil, que em outros países como os Estados Unidos é algo mais comum dentro das universidades como os da University of Maryland, da University of Columbia e da University of Notre Dame.

Segundo os diretores do centro e professores da UFPR, Ron Martinez e Eduardo Figueiredo, o CAPA surgiu para ser um espaço de diálogo entre alunos, pesquisadores e professores de diferentes universidade para valorizar o processo da pesquisa acadêmica, não somente o produto final (publicações, patentes, dissertações, teses e monografias).

O centro desenvolve diversas ações para o desenvolvimento acadêmico sem fins lucrativos, sendo que algumas são gratuitas e outras tem os custos necessários para continuar na manutenção do centro, destinadas principalmente para a comunidade interna da UFPR.

Um dos principais pilares do CAPA é que o processo de produção de um texto acadêmico é um ato social e precisa de diálogo, por isso incentiva ações como os Dias de Produção e a Consulta Individualizada presencial ou online (gratuito para comunidade externa da UFPR também), na qual um assessor ouvirá o aluno, professor ou pesquisador e dar dicas e sugestões segundo as dúvidas levantadas, salientando que o foco não é “correção” de texto e sim uma conversa.

Como a intenção é formar um corpo acadêmico qualificado para a escrita científica, o CAPA também oferece serviços de tradução de textos, revisões em grupo, revisão de artigos antes e depois da submissão, preparação de apresentações, disciplina para redação acadêmica na língua inglesa e outras atividades que você pode conferir no site oficial do centro de escrita da UFPR

Mas tanto nas atividades do CAPA quanto na palestra de Robson Cruz fica a dica mais preciosa, ao sentir dificuldade de evolução do seu trabalho ou para redação e edição do seu texto acadêmico, peça ajuda e orientação de seus colegas ou de um centro especializado próximo de você.

Para se aprofundar mais no assunto, confira a entrevista que o pesquisador e psicólogo Robson Cruz concedeu à TV UFMG sobre sua pesquisa com pós-graduandos, ansiedade e o bloqueio de escrita:

 

 

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