Opinião · Proceedings
Anais e Proceedings de eventos são mais relevantes do que você pensa
Tratados como publicação de segunda classe, os anais ficam entre o preprint e o periódico. Os de um simpósio já passaram de 1 milhão de visualizações.
Anais e proceedings de eventos costumam ser tratados como cidadãos de segunda classe no mundo das publicações. Não têm o peso de um artigo de periódico nem a agilidade de um preprint, então acabam arquivados como formalidade: algo que a comissão organizadora produz depois do congresso porque é o que se espera, não porque alguém acredite que importa.
Essa leitura está errada, e custa aos eventos mais do que os organizadores percebem. Os anais cumprem uma função diferente da de um periódico, não uma função menor. São o registro do que uma área estava discutindo num momento específico, são o que mantém o evento presente entre uma edição e outra, e ocupam um lugar no espectro de rigor que nenhum outro formato ocupa.
Onde os anais ficam no espectro de rigor
A forma mais útil de entender os anais é colocá-los entre os dois tipos de publicação com que são comparados.
Um preprint é depositado num repositório aberto e não passou pela revisão por pares de um periódico (a triagem que alguns repositórios fazem verifica escopo e caráter científico, mas não é revisão por pares). É rápido e público. Um artigo de periódico está no outro extremo: um ciclo de revisão longo, critérios rígidos e um intervalo de meses ou anos entre a submissão e a publicação.
Os anais ficam no meio, e chegam a esse lugar por mérito. Na maioria dos eventos científicos, as submissões passam por revisão por pares de uma comissão científica, e os anais reúnem os trabalhos aprovados que o evento decide publicar, conforme as suas regras. A revisão é menos rígida que a de um periódico, e o motivo é estrutural, não falta de cuidado: a janela entre a chamada de trabalhos e a apresentação é curta, e a comissão trabalha dentro dela. Os anais combinam revisão de verdade com uma velocidade muito mais próxima da de um preprint.
Essa posição intermediária é o que torna os anais úteis, e é por isso que o reflexo de rebaixá-los erra o alvo. A pergunta certa não é se os anais são tão rigorosos quanto um periódico. Não são, e nunca tentaram ser. É o que você recebe em troca: um trabalho que chega à comunidade enquanto ainda é atual, filtrado por gente que trabalha na área.
As normas mudam de área para área
Não há um veredito universal sobre o peso dos anais, porque cada área já chegou ao seu. Análises bibliométricas confirmam que esse peso varia de campo para campo, e as medições recentes, da física às ciências humanas, continuam encontrando o mesmo padrão.1, 2, 3
Em muitas subáreas da ciência da computação, trabalhos completos publicados nos anais das principais conferências são tratados como publicações de primeira linha e citados rotineiramente.4, 5 É onde boa parte do trabalho importante da área aparece primeiro. O peso exato ainda varia conforme a subárea e o evento, mas a norma é clara.6
As ciências biológicas funcionam diferente. A credibilidade ainda se concentra nos periódicos reconhecidos, e um trabalho publicado em anais carrega menos peso na mesma conversa. É uma convenção real, e fingir o contrário não ajuda ninguém.7
Mas a fronteira está se movendo, e os preprints são a prova. Publicações depositadas em repositórios abertos, que ainda não passaram pela revisão por pares de um periódico, ganharam um lugar sério em áreas que, até pouco tempo atrás, se recusavam a citá-las.8 Se uma área consegue se ajustar aos preprints, o argumento para manter os anais num degrau inferior fica mais difícil de sustentar a cada ano. Num artigo de 2008, Aureliana Lopes Lacerda e colegas descrevem os eventos científicos como canais de comunicação informal e os anais como literatura cinzenta, de circulação rápida entre pares, uma leitura que já vinha sendo feita na área desde os anos 1990.9
É pelos anais que você acompanha o estado da arte
Ler os anais da principal conferência de uma área dá algo que nenhum artigo isolado dá: o panorama. Quais são as controvérsias. Qual é o assunto do momento. Que conceitos foram aposentados e o que os substituiu. Que grupos trabalham com o quê, e quem está discutindo com quem. E isso não é só impressão de quem frequenta a área: a própria bibliometria trata os anais como uma fonte de dados à parte, que capta o que os periódicos sozinhos não registram.10
Parte disso vem de uma liberdade que recebe pouca atenção. A comissão organizadora de um evento científico define seus próprios critérios de seleção e avaliação. Não está presa à tradição editorial de um periódico, então pode ser mais ousada, mais atual e mais aberta sobre o que aceita, abrindo espaço para um trabalho que um periódico tradicional levaria anos para alcançar. Essa liberdade editorial é boa parte do motivo pelo qual os anais acompanham tão bem a fronteira.
A outra parte é a própria discussão. Num congresso, os trabalhos apresentados em sessões orais ou em pôster recebem dúvidas, comparações, críticas e elogios em tempo real, sem a proteção que a tecla “delete” oferece. Os anais são o registro desse momento. É por isso que funcionam como documentos históricos, como fonte de pesquisa para estudantes e como material de consulta para pesquisadores que nunca estiveram na sala.
O que os anais fazem pelo evento entre uma edição e outra
Boa parte do que um congresso produz é intangível. A experiência, o aprendizado, os novos contatos, as ideias que começaram no café: reais, valiosos e difíceis de apontar um ano depois. Os anais são o registro durável de todo o esforço.
São também a propaganda mais honesta do evento para a próxima edição. Um pesquisador que está decidindo se submete a uma chamada de trabalhos quer saber que tipo de trabalho é aceito e qual é o nível. Anais abertos respondem isso em cinco minutos, e nenhum texto promocional compete com eles.
O SLACAN, o Simpósio Latino Americano de Ciência de Alimentos e Nutrição, é uma prova concreta desse alcance. Fundado pela Profa. Glaucia Pastore (Unicamp), o simpósio acontece desde 1995 e roda inteiro no Galoá, da revisão por pares à publicação dos anais. Os trabalhos do simpósio publicados na plataforma já passaram de 1 milhão de visualizações acumuladas. Visualizações não são leitores únicos, mas o total mostra que os trabalhos seguem sendo acessados muito além das datas do evento.
E esse alcance é mensurável por trabalho. Quando a plataforma de proceedings reporta os dados de acesso de cada trabalho, a comissão para de adivinhar o alcance do evento, e os autores veem, muitos pela primeira vez, quantas vezes o próprio trabalho foi acessado. Os anais alcançam gente além de quem esteve na sala, e continuam disponíveis depois da cerimônia de encerramento.
O DOI é o que faz o registro durar
A identificação persistente ajuda esse registro a continuar encontrável. Um trabalho publicado em anais com DOI ganha um identificador persistente e um link gerenciado: mais fácil de achar, de rastrear e de citar. O identificador continua funcionando enquanto a URL registrada e os metadados forem mantidos atualizados. Sem um DOI, o trabalho ainda é uma publicação, mas fica muito mais difícil de rastrear de forma confiável quando os sites mudam: um estudo clássico com publicações de conferência encontrou quase metade das URLs quebradas em menos de uma década.11
Isso pesa mais para quem mais precisa. Pesquisadores em início de carreira muitas vezes apresentam o primeiro trabalho nesses eventos, e um trabalho de anais devidamente registrado é assim que eles aprendem o que é um currículo de publicações e como construir o seu. É também o que mantém alcançáveis, depois, as conversas que começaram no evento: um leitor que quis perguntar algo aos autores e não teve a chance ainda consegue encontrá-los.
A atribuição correta é a outra metade do mesmo problema, e é para isso que o ORCID existe. Quando incluído nos metadados, um ORCID iD ajuda a manter o trabalho conectado a quem o escreveu, à medida que esses metadados circulam entre plataformas. O Galoá deposita os metadados dos anais no mesmo padrão que o resto do registro científico usa, porque uma publicação que a indexação não enxerga alcança bem menos leitores do que merece.
Trate os anais como o objetivo, não a papelada
Um congresso que trata os anais como detalhe está desperdiçando um de seus ativos acadêmicos mais duráveis. Bem-feitos, os anais estendem a discussão muito além do encerramento, dão à área um retrato legível do próprio estado da arte e carregam o nome do evento pelo intervalo inteiro até a edição seguinte.
A comissão organizadora que entende isso para de perguntar como despachar os anais e passa a perguntar como fazer com que valha a pena encontrá-los. Essa é a diferença entre um evento que acontece a cada dois anos e um evento que a área considera sua principal referência.
Perguntas frequentes
Os anais de evento passam por revisão por pares?
Na maioria dos eventos científicos, sim. As submissões passam por revisão por pares de uma comissão científica, e os anais reúnem os trabalhos aprovados que o evento decide publicar, conforme as suas regras. A revisão costuma ser mais curta e menos aprofundada que a de um periódico, principalmente porque o prazo entre a chamada de trabalhos e o evento é curto, mas é revisão por pares pela mesma lógica: pesquisadores avaliando o trabalho de pesquisadores da própria área.
Anais de evento contam como publicação?
Contam, e o peso depende da área. Em muitas subáreas da ciência da computação, trabalhos completos nos anais das principais conferências são publicações de primeira linha e citados rotineiramente, embora o peso exato varie conforme a subárea e o evento. Nas ciências biológicas, um artigo de periódico costuma carregar mais prestígio. Em qualquer área, um trabalho publicado em anais com DOI é um registro citável que tem lugar no currículo do autor.
Qual a diferença entre anais e artigo de periódico?
Rigor e tempo. O artigo de periódico passa por um ciclo de revisão mais longo e rígido, e pode levar meses ou anos até sair. Os anais estão presos ao calendário do evento, então a revisão é mais rápida e o trabalho chega à comunidade enquanto ainda é atual. Os anais também guardam algo que o periódico não guarda: o registro de um trabalho apresentado e discutido no contexto do evento, seja em sessão oral ou em pôster.
Por que publicar os anais em acesso aberto?
Porque o acesso aberto amplia o público potencial para além de quem esteve no evento. Os anais podem ser consultados por quem participou, por possíveis autores de edições futuras e por pesquisadores da área que nunca ouviram falar do evento. Fechar esse acesso elimina um canal de descoberta e reduz a visibilidade do evento entre uma edição e outra.
Publique os anais do seu evento científico
Da chamada de trabalhos à revisão por pares e à publicação dos anais com DOI, tudo numa plataforma feita por cientistas.
Conhecer o Galoá ProceedingsReferências
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