Ciência

Paulo Vanzolini: O refúgio do Samba

Ao escrever sobre Paulo Vanzolini, há que se tomar uma decisão: falar do sambista que é também zoólogo, ou do zoólogo que é também sambista? Paulo Vanzolini é ambas as coisas, e muito versado em ambas.

Eu conheci primeiro o sambista, mas este é um blog sobre Ciência, então começo falando do biólogo.

O zoólogo

Paulo Vanzolini é certamente um dos grandes nomes da zoologia brasileira, sendo um dos autores da impactante Teoria dos Refúgios, um dos fundadores da FAPESP e por décadas diretor do Museu de Zoologia da USP.

Com catorze anos, recém saído do ginásio, Paulo Vanzolini estagiou voluntariamente em um dos laboratórios do Instituto Butantan, onde começou a aprender a profissão de zoólogo.

Por recomendação de André Dreyfuss, amigo de seu pai e um dos pais da genética do Brasil, Vanzolini formou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo, que cursou por causa dos cursos de anatomia, histologia, embriologia e fisiologia. Aos 24 anos, foi para os Estados Unidos, para cursar pós-graduação em Harvard.

Museu de zoologia

Ainda no quinto ano do curso Medicina, foi nomeado para o Museu de Zoologia da USP. Vanzolini se tornou diretor do Museu em 1959, cargo que ocuparia por 30 anos. Mesmo depois de aposentado, nunca deixou de ir ao Museu de Zoologia, das 8:30h às 19h, todos os dias.

O museu prosperou durante sua gestão. A coleção de animais, que tinha 1.200 exemplares quando ele assumiu o posto, cresceu para 220.000 exemplares. 

Paulo Vanzolini percorreu todo o país, da Amazônia à catinga nordestina e muitos desses 220.000 exemplares, ele mesmo coletou. O número exato, não sabia; perguntando sobre isso em entrevista ao Dr. Drauzio Varella, disse:

Nunca me interessei em saber esse dado. Na verdade, não sou um bom coletor. Mesmo assim, talvez tenha conseguido uns dez mil exemplares.


Anolis vanzolinii, 
uma das quinze espécies que foram nomeadas em homenagem a Paulo Vanzolini. [fonte]

A FAPESP

Entre o final da década de 50 e começo da década de 60, Paulo Vanzolini era um dos vários professores que pleiteavam junto ao governador Carvalho Pinto a criação de uma fundação para financiamento de pesquisa científica. Assessor científico da Secretaria de Agricultura, ajudou a redigir em 1959 o anteprojeto de lei que resultaria na criação da FAPESP. 

Aí o Carvalho Pinto me mandou estudar o assunto, fui para os Estados Unidos, conversei com o pessoal das fundações Guggenheim e Ford. Me vali muito das conversas que tive com Henri Allen Moe, secretário do Guggenheim, essa ideia de desburocratizar a FAPESP veio de lá. Fiz o projeto de lei que passou na Assembleia

–– Paulo Vanzolini, em entrevista à revista Pesquisa FAPESP, em junho de 2002.

O projeto foi aprovado em 1960 e a FAPESP seria instaurada definitivamente em 1962, com o decreto 40.132, que aprovou os estatutos da Fundação. Vanzolini foi um dos membos do primeiro Conselho Superior, e foi membro do conselho em 1961-1967, 1977-1979 e 1986-1993.

O trabalho de Paulo Vanzolini foi instrumental na fundação e fortalecimento da FAPESP. Não só ele foi um dos responsáveis por estabelecer a estrutura interna da FAPESP e garantir que ela funcionasse de maneira eficiente, mas também batalhou para que a Fundação investisse recursos para garantir o patrimônio que ela tem hoje.

Teoria dos Refúgios

O trabalho de zoologia mais famoso de Paulo Vanzolini é a Teoria de Refúgios.

Proposta inicialmente pelo geólogo alemão Jürgen Haffer, foi desenvolvida por Paulo Vanzolini e pelo americano Ernest Williams. Um ano depois de Haffer publicar seu artigo inicial, Vanzolini e Williams publicaram um estudo sobre o surgimento de uma espécie de lagarto do gênero Anolis, com propostas bastante similares à feita por Haffer.

Uma vez que Haffer e Vanzolini entraram contato, Haffer veio ao Brasil conhecer o trabalho com o Anolis e uma parceria de trabalho foi estabelecida.

A Teoria do Refúgio se propõe a explicar a grandíssima biodiversidade encontrada na Amazônia. Ela sugere que mudanças geológicas e climáticas nos últimos 2 milhões de anos teriam causado zonas secas temporárias na Amazônia, reduzindo a floresta a apenas alguns "refúgios" de mata úmida. Nesses refúgios, os membros que eram até então uma espécie única passariam por um processo de especiação, gerando várias espécies diferentes.

A Teoria dos Refúgios perdeu popularidade a partir de a década de 90, mas ganhou recentemente novo fôlego com pesquisas que propuseram mecanismos similares para explicar a biodiversidade na Mata Atlântica.

O sambista

Paulo Vanzolini também é muito conhecido, fora dos círculos de biologia, como um dos grandes sambistas paulistas.

As letras dos sambas dele são geralmente muito bem humoradas, com um humor ácido e uma história, como por exemplo a "Praça Clóvis" (a praça fica do lado da Catedral da Sé, no centro histórico de São Paulo, e era já na década de 60 lugar muito comum de batedores de carteira):

Na praça Clóvis, minha carteira foi batida. Tinha vinte e cinco cruzeiros e o teu retrato. Vinte e cinco, eu, francamente, achei barato pra me livrarem do meu atraso de vida. Eu já devia ter rasgado (...) esse retrato (...) cujo olhar me maltratava e perseguia (...) Vinte e cinco, francamente foi de graça!

Em 1951, Paulo Vanzolini compôs Ronda, um samba que seria gravado pela primeira vez em 1953. Dez anos depois, o cantor Noite Ilustrada lançaria uma outra gravação do samba, que fez grande sucesso.

Já diretor do Museu de Zoologia da USP, Vanzolini continuou compondo e tocando sambas na noite paulistana, em especial na boate Jogral. O diretor dessa boate, Luís Carlos Paraná, produz em 1967 o LP 11 sambas e uma capoeira, com músicas de Vanzolini cantadas por vários músicos, inclusive Chico Buarque (Praça Clóvis, Samba Eurudito).

Continuou compondo até pouco depois dos setenta anos de idade. Em 1997, foi homenageado na USP com um show onde foram tocadas músicas inéditas, como Quando eu for eu vou sem pena, com uma bonita letra sobre uma vida bem vivida.

Vanzolini foi um grande sambista e um grande zoólogo, mas eu acredito que ele era mesmo um zoólogo que também fazia samba: o sambista se aposentou aos setenta, o zoólogo continuou frequentando diariamente o Museu de Zoologia, não por outra coisa senão por gostar do que fazia.

Eu aprendi que o cientista, em primeiro lugar, tem de ser generoso. Não é importante ser o dono da ideia. O importante é que a ideia esteja à disposição de todo o mundo. Se tenho uma coleção, tenho obrigação de compartilhá-la com quem dela precisa. Se tenho uma biblioteca, meu desejo é compartilhar os livros.

–– Paulo Vanzolini em entrevista a Drauzio Varella, em 2012

 

Referências

VANZOLINI, P. Paulo Vanzolini: Brilhante na Ciência e na Música: entrevista. Disponível em: <http://drauziovarella.com.br/doencas-e-sintomas/paulo-vanzolini/>. Acesso em: 6 jan. 2016. Entrevista concedida a Drauzio Varella.
GERAQUE, E. O fôlego de uma teoria. Revista FAPESP. São Paulo, 50 anos de FAPESP, 2012.
MPBNET. MBPNET: Paulo Vanzolini. Disponível em: <http://www.mpbnet.com.br/musicos/paulo.vanzolini/>. Acesso em: 6 jan. 2016.
DIVULGA CIÊNCIA. Divulga Cientista: Paulo Vanzolini. Disponível em: <https://blogdivulgaciencia.wordpress.com/2015/03/02/divulga-cientista-pa.... Acesso em: 6 jan. 2016.

Artigos científicos

HAFFER, J. Speciation in Amazonian Forest Birds. Science, v. 165, n. 3889, p. 131–137, 1969.
VANZOLINI, P. E. e WILLIAMS, E. E. South American anoles: the geographic differentiation and evolution of the Anolis chrysolepis species group (Sauria, Iguanidae). Arq. Zool. v.19, n. 1-2, p. 1-176, 1970.