Os setenta anos de botânica de Berta Lange de Morretes

A história da ciência brasileira foi escrita pelas mãos de várias pioneiras. Formada com a primeiríssima turma do curso de História Natural da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e uma das primeiras docentes do Departamento de Botânica, Berta Lange de Morretes é uma dessas pioneiras.

O curso de História Natural no qual ela se formou é hoje o curso de Ciências Biológicas. A FFCL deu lugar a diversos institutos, entre eles o Instituto de Biociências. Apesar de tantas mudanças, Berta, hoje com 98 anos, continua ativa do corpo docente do Instituto.

Ela nasceu em 1917 em Iffeldorf, na Alemanha, filha de um pai brasileiro também biólogo e uma mãe alemã e artista. Logo ao final da Primeira Guerra, a família embarcou para Curitiba, onde morava o avô paterno. 

Certa vez, eu lembro que meu avô foi fazer um sanduiche para mim. Eu peguei na mão dele e disse “Vovô, você está usando a manteiga do dia todo, não pode”.  Meu avô chorou e disse “Agora você vai comer pãozinho com manteiga todo dia. Você não está mais na Alemanha no tempo da guerra, você está no Brasil.” Daí ele passava manteiga régia no meu pão. Era um encanto e hoje eu entendo, o porquê ele chorou. Foi pela emoção causada por uma criança não ter nada, não ter manteiga! E isso não era nada aqui no Brasil. Isso fica dentro da gente. Acredito que temos de dividir tudo que podemos com os outros. Acredito que foi algo que marcou minha educação infantil.
– Berta Lange de Morretes, em entrevista à Revista “A Terceira Idade”

Em meados da década de 30, Frederico Lange, o pai de Berta, foi contratado para o Museu Paulista, na área de Zoologia. Em 1938, ela e a irmã Ruth ingressariam na primeira turma do recém-criado curso de História Natural. Um total de dez estudantes, cinco homens e cinco mulheres.

Quando contamos ao meu pai que queríamos entrar nesse curso novo, meus tios disseram que ele era louco de deixar.
– Berta Lange de Morretes, em entrevista a O Estado de São Paulo

A USP, fundada quatro anos antes, estava ainda em formação, os professores eram praticamente todos estrangeiros, recrutados por uma comitiva do governo paulista que foi a Europa em 1934 com esse intuito.

O curso funcionava inicialmente na Faculdade de Medicina, que não aceitava muito bem a presença de estudantes da História Natural. Foi transferido depois para o Palacete Jorge Street, na Alameda Gleta, um imóvel que havia sido adquirido pelo governo do Estado para abrigar cursos da Faculdade. O Departamento de Botânica funcionava sobre um tablado colocado sobre uma piscina.

No dia seguinte à sua formatura, Berta foi contratada, junto com a sua irmã Ruth, para compor o quadro docente.

Na década de 1960, os departamentos da FFCL foi transferida para a Cidade Universitária e eventualmente foi formado o Instituto de Biociências. No prédio do IB, Berta ocupa há 50 anos a sala de número 136A. Nessa mesma década, fez pós-doc na Universidade da California – Davis em 1960-1961, com uma bolsa da Fundação Rockfeller.

Especialista em anatomia vegetal, tem, desde 2010, dois projetos de pesquisa, “Comparação morfofisiológica sob tres níveis de intensidade luminosa e umidade em Asphodelaceae” e “Efeitos das radiações do aparelho microondas e do telefone celular sobre a germinação das sementes e do desenvolvimento das plântulas leguminosas“. 

Além disso, Berta também de destacou na docência. Generosa e exigente, ela orientou várias gerações de alunos e permaneceu ativa mesmo depois de aposentada.

A Berta se destaca, a meu ver, pelo coração enorme que tem, no qual abriga tantos amigos e orientandos. Ela não descarta nenhuma proposta [de trabalho] que você faça. Vejo que, por isso, ela continua atraindo tantas pessoas que querem desenvolver algum tipo de pesquisa com ela.
– Ana Maria Donato, professora da UERJ, em entrevista ao Portal R7

Já com mais de 90 anos continuou a dar aulas e, inclusive, acompanhou os alunos em várias visitas a campo. Mesmo com dificuldades de caminhar, fica sentada no carro e ajuda analisar as plantas que os alunos levarem a ela.

Uma das coisas que a gente precisa aprender é compartilhar. Se você tem uma coisa e ela é boa, trata de distribuir. Compartilhe, porque essa rede de compartilhamento gera outros tantos de compartilhamentos.
– Berta Lange de Morretes, em entrevista à Revista “A Terceira Idade”

Referências

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