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Visão de Hegel na formação dos povos e incentivo aos negócios comerciais

Nos últimos meses, escrevi e defendi nesta coluna a análise dos negócios como um fato social, abordando a atividade das empresas e a vida dos empreendedores muito para além da realidade dos números.

Por exemplo, adaptamos os princípios militares de Ephraim Kam, assim como recorremos a grandes pensadores clássicos, entre os quais: Talcott Parsons (funcionalismo), Karl Marx (marxismo) e Martin Buber (teoria das relações). Através desses autores, temos procurado demonstrar que o destino dos negócios depende majoritariamente de fatores sociais, sendo os aspetos financeiros meras consequências no sucesso ou fracasso das empresas e dos empreendedores.

Nessa linha, importa também referir ao sociólogo francês Émile Durkheim. Com efeito, Durkheim (1982) desenvolveu o conceito de fato social, que define como sendo a forma de agir, pensar e de sentir, exteriores aos próprios indivíduos, dotado de um poder de coerção sobre os mesmos, independente das suas próprias vontades. Assim, as respostas para a nossa organização social estão nos fatos sociais, devendo ser observados como se de “coisas” se tratassem, i.e., como se fossem objetos passíveis de análise.

Todavia, para uma melhor compreensão dessas “coisas” é fundamental responder previamente às questões seguintes: i) Quem são afinal essas forças tão poderosas? ii) Como exercem o seu poder e influência social?

 

Formação dos povos

Para o efeito, analisemos brevemente a filosofia da história universal através de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. De acordo com o filósofo alemão, o curso da história universal pode ser dividido em quatro grandes estágios: 1) Civilização Oriental – considerada a mais primitiva do espírito – na qual apenas um indivíduo sabe e se reconhece como livre; 2) Civilização Grega – apesar de imperfeita – a consciência da liberdade evolui para uma maior abrangência, passando de um para alguns homens livres; 3) Civilização Romana, tal como a grega, é marcadamente imparcial, sendo a liberdade restrita de alguns homens privilegiados; 4) Civilização Germânica, apresenta-se como o estágio final do progresso histórico, estando intrinsecamente associada ao cristianismo, que viabilizou a formação do Estado moderno e a sociedade da qual parte-se do princípio que todos os homens são livres.

É de salientar que Hegel deixa em aberto o aparecimento de um quinto estágio, resultante da consolidação da América do Norte, que descreve como “a terra do futuro”, mas que se encontrava, na época, ainda por desbravar, sendo, portanto, na época uma incógnita.

Na verdade, e ainda segundo a filosofia de Hegel, Prado (2010), descreve esses estágios como:

Oriente surge da reunião de nações como a China, Índia, Pérsia, Mesopotâmia, Judeia e o Egito. Nessas civilizações, o Estado se estruturava em torno de uma relação familiar e patriarcal. A partir dessa forma de poder central, configurava-se um Estado com uma constituição teocrática e, por conseguinte, autoritária, impedindo que a interioridade se manifestasse nos indivíduos. A todos os outros homens restava-lhes obedecer às leis, sem convicções interiores, mas apenas pela coação das forças exteriores.

Grécia simboliza uma mudança significativa em direção à consciência da liberdade. Com efeito, se no mundo oriental apenas um homem era livre, no mundo grego alguns homens passam a ser livres. É neste estágio do desenvolvimento do espírito que a individualidade começa a se formar determinada por sua própria condição geográfica, a Grécia é uma civilização ágil e dispersa, com o espírito contrário à monotonia, cheia de estímulos e entregue a mudança, plena de realizações e personagens, dos quais Hegel se revela admirador. O mundo grego se constituiu com a chegada de povos estrangeiros, remontando aos séculos XV e XIV a.C. Tal colonização gerou a mistura entre os nativos e os estrangeiros, formando assim, o espírito grego. Apesar de ser livre, o grego depende do estímulo exterior, dado que não possui em si o material e os meios da exteriorização, necessitando, por exemplo da matéria natural e do estímulo da natureza.

Roma surge da junção de vários povos, entre os quais: Etruscos, Sabinos e Latinos. Além destes, durante a formação de Roma exilaram-se vários criminosos nesse Estado formado, no princípio, apenas por homens e isolado de outros Estados. Por isso, corresponde à fase mais viril da história. Durante um largo período os povos vizinhos se recusaram a manter relações com Roma, muito associado à corrupção. O Estado romano se formou pela força e pela coação, sendo regido por leis severas e por uma disciplina rígida, constituindo um Estado fundado na dependência e subordinação.

Roma surgiu da união entre traidores que, em dificuldades, ter-se-iam associado com recurso à violência, que também usavam para manter o Estado. Invocando um alegado diálogo entre Napoleão e Goethe, Hegel diz que o Imperador francês afirma ao poeta alemão que, diferentemente da tragédia antiga, na nova tragédia não é o destino que se impõe aos homens, mas, no lugar da força do destino, teria surgido a política, como força à qual a individualidade teria que se render.

Germania foi na época o ponto máximo da evolução, revelando-se o estágio de maior maturidade, dado que simboliza o espírito do mundo moderno, que se traduz na reconciliação do espírito consigo mesmo. Ou seja, é a realização da liberdade. Esta civilização surge na sequência da civilização romana, no sentido em que adotaram a religião cristã como um sistema dogmático pronto. Apesar do cristianismo trazer no seu interior a liberdade subjetiva do indivíduo, afastou-se dos seus próprios princípios durante o sistema feudal. Na realidade, no período medieval a Igreja se tornou extremamente autoritária, especialmente através da inquisição, tornando-se uma força exterior. Esse fato abriu espaço para a Reforma de Lutero, que consiste na devolução da interioridade aos indivíduos. i.e., Cristo não está presente como forma exterior, mas pode ser alcançado pela fé e pela comunhão.

 

Imagem de pintura preto e branco de Hegel e outros filósofos discutindo

 

A consciência da liberdade

O processo viria a ser determinante no renascimento da consciência e do espírito livre, mas o conceito de liberdade não se manifestou prontamente logo após reforma. Na realidade, ocorreu um processo de adaptação do Estado, do direito, da propriedade, do governo e da constituição ao conceito da livre vontade. Em síntese, os princípios da igreja protestante tiveram que travar lutas para ganhar existência política, tendo tido os franceses um papel fundamental no processo, quando encetaram a Revolução Francesa. Objetivamente, a Revolução Francesa surgiu proclamando a liberdade e a igualdade, construindo as bases para um Estado Moderno e dando existência ao espírito universal, ou seja, estabelecendo a verdadeira ideia, a consciência da liberdade.

Assim, a partir da análise da história é possível concluir que a liberdade subjetiva tem sido exclusiva de muito poucos homens, sendo a generalidade dos outros homens, respectivos desejos e realizações, submetidos à aprovação prévia do Estado, por influência externa da sua organização política, social e religiosa.   

Nesse contexto, um indivíduo comum com as suas necessidades imediatas, os seus interesses próprios e as suas paixões, entre outros aspetos da sua vida pessoal e profissional; pretende, apenas, a cada ato voluntário, suprir essas necessidades, interesses e paixões de forma básica. Embora os seus atos particulares contenham potencialmente o que há de universal, eles não conseguem, ou não querem, realizá-los, ficando satisfeitos com o que conquistaram para si ou para os seus, vivendo o conforto da resignação.

Por outro lado, existem indivíduos opostos, que procuram compreender o seu tempo, aproveitam as oportunidades para contraporem, procurando superar as leis e os direitos estabelecidos vigentes na sua época. Estes homens, igualmente com as suas necessidades e paixões particulares, harmonizam num ato essas paixões e o potencial da universalidade (vontade geral) nelas contidas, expressando, por vezes, a antítese, como meio necessário para a transformação da sua realidade. Dessa forma, este homem, oposto ao comum, está, por sua vez, a sintetizar o interesse da Razão.

O processo conduz, normalmente, esses indivíduos opostos para situações inesperadas e dramáticas. Ao contrário dos indivíduos comuns, não são homens resignados, felizes, nem vivem confortáveis. Pelo contrário, vivem o desconforto dos desafios que lhe conferem, cuja diferença, a prazo, se traduz na progressão da consciência da liberdade, tendo, todavia, no presente um efeito totalmente adverso, levando à, eventual, destruição de tudo o que toque ou faça, tanto a nível pessoal, como profissional.

Assim, se para Hegel a Razão governa a História e os indivíduos são dotados de uma capacidade de realizar os interesses das suas paixões, aliada ao universal. Logo, sendo este o resultado da atividade particular e da sua negação, pode-se questionar como se dá a relação do particular com o universal? Na ação de um indivíduo (histórico universal), a relação entre interesse particular e o universal é inseparável ocorre por participação. Por outras palavras, este indivíduo se expõe aos perigos gerados pela sua ação e se desgasta nos conflitos com a oposição, enquanto agente privado, sendo que a ideia, que é o universal, mantém-se ilesa, inabalável. Ou melhor, nas palavras de Hegel, dá-se a “Astúcia da Razão”.

A “Astúcia da Razão” consiste em salvaguardar a ideia, permitindo que as paixões atuem por si mesmas, experimentem perdas e danos para que nessa luta e nessa perda, sobressaia sempre algo de positivo, afirmativo. Trata-se do preço do sacrifício pela progressiva consciência da liberdade e que justifica as ações dos outros homens, diferentes dos comuns, não só de imediato, como posteriormente na história pessoal e profissional.

Esquematizando, para concluir, apresentamos abaixo, para finalizar, algumas tabelas que sistematizam o texto e servem de ferramentas metodológicas de análise social e de apoio à decisão dos empreendedores na direção estratégica das respetivas empresas.

 

Tabela 1: Visão dos negócios a partir da perspectiva religiosa

Cristianismo (Igreja Católica)

Negativa

Cristianismo (Igreja Protestante)

Positivo

 

 

Tabela 2: Visão dos negócios a partir do sistema econômico

Capitalismo

Positiva (Pró-negócios privados)

Socialismo

Negativa (Anti negócios privados)

  

 

Tabela 3: Oportunidade de negócios em função da política

Regime comunista (socialista)

Baixas, especialmente para empresários

Regime totalitário de esquerda

Alto para classes mais baixas, funcionários públicos, ambiente anti empreendedor

Regime totalitário de direita

Altas para as classes médias altas

Regime pluralista

Altas para todas as classes

 

Referências:

Durkheim, É. (1982). The rules of Sociological method and selected texts. New York McMillam Press.

Hegel, F. (2005). Filosofia da história. UNB: Brasília.

Prado, C. (2010). Razão e Progresso na Filosofia da História de Hegel. Revista do Mestrado em História, Vassouras, v. 12, n. 2, p. 99-114, jul./dez.

 

**Eduardo Leite é doutor em administração pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Portugal e editor da E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP.

 

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