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Uma teoria econômica factual para além dos números (Caso de Dona Grácia Nasi)

A primeira ideia que geralmente nos ocorre quando pensamos nas dificuldades econômicas e financeiras de uma determinada empresa, na sua eventual insolvência ou mesmo falência, é de que o negócio subjacente não deu certo, o dinheiro terminou e, por isso, está condenada a desaparecer. Porém, essa percepção nem sempre corresponde à realidade. Sendo certo que a falta de dinheiro é um efeito das dificuldades, no entanto, pode não ser necessariamente a causa de uma insolvência ou falência.

Na origem desse pensamento primário, destacamos o fato de os negócios serem, frequentemente, analisados pela via das disciplinas comerciais e do ponto de vista meramente quantitativo, negligenciando a abordagem qualitativa. Por exemplo, quando se pretende apurar responsabilidades na gestão de uma sociedade comercial e tomar contato com a realidade da organização, habitualmente solicitamos uma auditoria financeira. Apesar de ser um instrumento de análise importante, uma auditoria financeira não capta por si só o fenômeno empresarial na sua totalidade.  

Assim, numa análise mais profunda é possível identificar outras razões por detrás dos fracassos dos negócios e dos empreendedores, designadamente, causas sociais, econômicas e políticas. É nesse quadro que invocamos os autores não conectados com os negócios, cujas teorias e princípios achamos que podem ajudar na construção e uma visão holística das empresas, dos seus sucessos e, muito especialmente, dos fracassos. O objetivo é contribuir para a explicação das causas do insucesso dos empreendedores e respetivos negócios, que vão muito para além dos números.

Ilustrando simbolicamente o caso de Dona Grácia Nasi, empresária que viveu 500 anos atrás e foi relevante em Portugal, é possível concluir que são vários os acontecimentos que escapam à análise distante da realidade dos números. Com efeito, da vida de Dona Grácia é possível extrapolar uma quantidade significativa de fatos aparentemente desligados dos negócios, cujo impacto é, todavia, vital.

Salientemos o casamento de Dona Grácia Nasi com Francisco Mendes, um dos homens mais ricos e influentes em Portugal no século XVI. Juntamente com o seu irmão, Diogo, Francisco fundou um império comercial e financeiro, com escritórios em Lisboa e Antuérpia. A Casa Mendes tornou-se uma das mais poderosas financeiras da Europa do Renascimento e concedeu enormes empréstimos a grandes figuras da época, como Carlos V, de Espanha e do império Romano, Henrique VIII, rei da Inglaterra, entre outros.

A atividade financeira era o core business da Casa Mendes. Não obstante isso, a Casa Mendes também apoiou uma quantidade significativa de projetos sociais através do apoio a uma variedade de causas cripto-judias. É de salientar o fato de terem recorrido ao seu poder financeiro para lutar contra o estabelecimento da Inquisição em Portugal, ajudando, de igual modo, a manter abertas várias vias de fuga para os cidadãos que optaram por viver em países mais tolerantes.

Subitamente, em 1535, Francisco faleceu e deixou parte de sua riqueza para Dona Grácia e sua filha Ana, também conhecida pelo seu nome judio, Reyna.

A permanência da Inquisição em Portugal (1536) e o consequente desejo do rei português de casar a filha de Dona Grácia com um cristão tradicional, como tentativa de controlar a riqueza, geraram tensão entre Dona Grácia e as autoridades portuguesas. Pressionada, Dona Grácia deixou Portugal em direção a Antuérpia, acompanhada pela sua irmã Brianda, por sua filha Ana e outros elementos da família.

A sua saída de Portugal foi organizada juntamente com o seu cunhado Diogo, apoiados nos negócios do país de destino, Antuérpia, que se encontrava sob o reinado de Carlos V. Na época, um importante centro de comércio e a chegada de Dona Grácia se tornaram um benefício econômico para a cidade, não só por causa de sua riqueza pessoal, mas também pela sua rede de negócios e habilidades empresariais. Ao chegar a Antuérpia, Dona Grácia conheceu Ercole II, Duque de Ferrara, com quem trabalhou e desenvolveu, para fins comerciais, relações sociais e de negócio.

Todavia, em 1543, um novo acontecimento trágico assolou a família: a morte de Diogo. Em testamento, Diogo designou Dona Grácia como administradora de sua parte da fortuna dos Mendes e também como tutora de sua filha. Dessa forma, transformou Dona Grácia numa das mulheres mais ricas e poderosas da Europa. A última vontade, inscrita no testamento de Diogo, causou tensão e ciúme entre as irmãs, abrindo caminho para conflitos familiares num futuro próximo.

A morte de Diogo trouxe, ainda, problemas na relação de Dona Grácia com o Imperador Carlos V e com a Rainha Maria que, observando uma mulher solitária, viram uma boa oportunidade para atacar uma das maiores fortunas da Europa. Primeiro, tentaram confiscar as propriedades da família, procurando, posteriormente, forçar um casamento de conveniência entre a filha de Dona Grácia, Ana, e um cristão tradicional.

Como consequência destes fatos, a vivência de Dona Grácia em Portugal (com a Inquisição e proposta de casamento de conveniência) voltou a repetir-se na Bélgica, motivando-a a escolher outro destino. A opção foi Veneza, para onde se mudou, em 1545, novamente com a família.

Imagem de moeda dom Dona Grácia Nassi

Uma vez na Itália, Dona Grácia viveu uma situação peculiar quando comparada com Portugal, ou seja, em Lisboa. Apesar de ser cristã, por causa da sua ascendência judaica, os cristãos a viam como judia. Já em Veneza, devido à sua origem e proveniência portuguesa, a comunidade judaica considerava-lhe cristã.

Pela primeira vez na sua história, Dona Grácia equaciona um destino fora da Europa Ocidental, no Império Otomano. No entanto, a rivalidade entre as irmãs, desencadeada pela decisão de seu cunhado Diogo para benefício de Dona Grácia, expressa no testamento, aparece novamente como uma ferida que não havia cicatrizado. Brianda queria ter acesso à fortuna de seu marido e não pretendia deixar a Europa na companhia de sua irmã. Brianda enfrentava, no entanto, a oposição de Dona Grácia. Essa última considerava a fortuna dos Mendes um legado familiar sagrado, comprometido com a continuidade dos negócios e com causas sociais, não reconhecendo à irmã a capacidade de cumprir essa missão. Brianda decidiu, então, denunciar Dona Grácia ao Senado veneziano, acusando-a de judaizante. Esse ataque realizado dentro da própria família causou uma ruptura e separação familiar.

Como resultado do incidente, em 1548 Dona Grácia é forçada a deixar Veneza, temporariamente em direção a Ferrara, tendo como destino final a Turquia. Novamente, Dona Grácia mostra habilidades de negociadora e empreendedora e, recorrendo ao seu poder econômico e financeiro, persuade com sucesso o Sultão Suleiman, o Magnífico (1520-1566), a aceitá-la nos seus domínios.

Embora subsistam algumas dúvidas levantadas pela biógrafa Andrée A. Brooks, acredita-se que foi na Turquia que Dona Gracia se entregou, em definitivo e abertamente, ao judaísmo.

Para interpretar esses acontecimentos totalmente fora do alcance dos números, recorremos a pensadores clássicos como Talcott Parsons (funcionalismo), Karl Marx (marxismo) e Martin Buber (teoria das relações).

Talcott Parsons introduziu a teoria do funcionalismo, partindo da suposição de que os sistemas sociais estão interligados com tudo. Assim, por exemplo, uma mudança em qualquer letra do abecedário, não afetaria apenas outra letra, mas todo o alfabeto. A história financeira de Dona Grácia mostra-nos que a intolerância portuguesa do século XVI, juntamente com outras decisões governamentais, teve um grande impacto no país, tornando-o num espaço onde o espírito empreendedor deixou de ser bem-vindo. Metaforicamente, Dona Grácia passa a representar a fuga em massa dos empreendedores e dos negócios de Portugal no século XVI, isto se considerarmos, também, a interação simbólica preconizada por Max Weber.

Já relevando Karl Marx, podemos concluir que esse autor dividiu o mundo em dois grandes grupos sociais. Na sua perspetiva, há um grupo dominante, a burguesia, e um grupo oprimido, o proletariado. Em termos marxistas clássicos, os burgueses possuem os meios de produção, aproveitando-se do proletariado.

No caso de Dona Grácia, o proletariado não é significativo, mas o que é de relevar são as relações de poder, sendo Dona Grácia uma espécie de subclasse dentro do próprio poder. Como tal, a sua fuga de Portugal representa o desejo dos burgueses de consolidar o seu poder e de dominar todos os grupos mais fracos. A Igreja, apesar dos seus ensinamentos, é encarada, a partir da perspectiva marxista, como uma poderosa oligarquia que não só pode fazer as leis, mas também pode, através do apoio secular dos governos, impor a sua vontade aos menos poderosos.

Por último, a teoria de Martin Buber parte da hipótese de que todos os relacionamentos podem ser vistos em dois planos. Em primeiro plano, temos a relação Eu-Tu e, no segundo plano, a relação Eu-Isso. Para Buber, não podemos existir isoladamente, sendo essa mesma a razão pelo qual somos julgados face às relações que privamos. Logo, temos uma tendência para agir não só pelo que é, mas com quem e o quê que se interage, dentro de um quadro de referências.

Esses princípios são talvez uma ideia chave na interpretação deste texto. E, desse modo, podemos partir do pressuposto que os negócios são muito mais do que meros números e que, muitas vezes, uma avaliação puramente quantitativa dos negócios não capta uma série de variáveis ​​qualitativas, tais como a lealdade e compromisso para com o negócio, nem a relação entre os indivíduos, e destes com o próprio negócio e o contexto. Buber supõe que nós somos frequentemente mais atentos e protetores com aqueles que são mais elevados na escala de Eu-Tu.

Nessa perspectiva, Dona Grácia simboliza o fato de que o negócio é mais do que os números. Em vez disso, a disposição de se sacrificar por causa de um negócio pode ser proporcional ao nível de compromisso empresarial. Por exemplo, no caso de Dona Grácia, devido ao seu amor pela sua filha Ana, ela pode ter feito várias escolhas de negócios irracionais, baseadas essencialmente na emoção e com base na relação mãe-filha. O modelo de Buber age, então, em oposição direta à crença de que os executivos fazem apenas escolhas racionais e baseadas em fatos concretos, o que, como vimos, nem sempre acontece.

 

**Eduardo Leite é doutor em administração pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Portugal e editor da E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP.

 

Referências

Brooks, A. (2002). The Woman Who Defied Kings: The Life and Times of Doña Gracia Nasi. Minnesota, Paragon House.

Buber, M. (1958). I and Thou. New York: Charles Scribners & Sons Ltd.

Marx, K. (1977). Capital. New York: Vintage Books.

Parsons, T. (1960). Estrutura e Processo nas Sociedades Modernas.

Weber, M. (2003). The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism. Translated by Talcott Parsons originally published Scribner New York 1958, Library of Congress.

 

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