Colunistas

Palavras, são palavras e muito mais que palavras!

Poetas, seresteiros, namorados, correi

É chegada a hora de escrever e cantar 

Talvez as derradeiras noites de luar

(Gilberto Gil. Lunik-9, 1967)

Assim como conclama o compositor, eu convoco os leitores a apreciar as palavras, olhá-las bem de pertinho. Senti-las. Saboreá-las.

As palavras criam, acariciam, embelezam, alegram, ensinam, protegem, apoiam, conduzem, curam, soltam, enfim... Palavras são flores do bem! Por outro lado, as palavras maltratam, enfeiam, ferem, entristecem, deprimem, enganam, desviam, desvirtuam, prendem, matam. Essas palavras são armas do mal.

 

 

Portanto, é preciso conhecer bem as palavras para empregá-las de modo adequado, preferentemente para engrandecer a vida, enaltecer, encorajar, aconselhar, ajudar, salvar. No entanto, mesmo sabendo da força das palavras, homens ousam usá-las inconsequentemente.

Há os que as reinventam, ressignificam. Há os que brincam com elas, trabalhando-as como se fossem massinha de modelar. Há aqueles que as arranjam de tal modo que constroem buquês de palavras, corbeilles (preferi o francês porque se mostra delicado nessas horas). Lindo, não?! Há os que delas fazem passatempo, cruzando-as vertical ou horizontalmente, ou mesmo virando-as do avesso assim — *osseva. Estranho, não? É melhor caçar palavras! Há os que se confundem e usam colocar, quando deveriam usar, por exemplo afirmar, declarar, asseverar. Outros pensam que trocar o ter por possuir é chique. Então dizem coisas como “meu cachorro possui quatro patas”. Ora, possuir subentende a ideia de adquirir. Será que o cãozinho comprou suas patinhas? Eu, hein! Podem-se dizer coisas chiques com o verbo ter e coisas esquisitas, ou mesmo erradas, com possuir. Quer ver? Os magistrados brasileiros têm remunerações invejáveis! Essa é chique. Agora: O Brasil possui os políticos mais honestos do mundo. Cruzes! Dois erros numa frase só: Brasil é inanimado e não pode possuir nada; políticos honestos? Prefiro não comentar.

Ainda sobre colocar, a mídia insiste em dizer que “manifestantes colocaram fogo em ônibus”, “moradores revoltados colocaram fogo em ônibus”, e que tais. Fico imaginando pessoas carregando o fogo (em latinhas, latões, archotes etc.) para depositar nos ônibus-vítimas. É engraçado, não?

Não quero dizer aqui que o falante não tem direito sobre a língua. Pior que tem! Mas vamos com calma. A língua não é a casa-da-mãe-joana! As palavras têm significados primários, secundários, terciários e *novidadeiros! Os primários seriam aqueles que todos conhecem, como: mãe, pai, tio, casa, sapato, comida, dinheiro, amor, alegria, tristeza, dor e assim por diante. Os secundários geralmente nascem na técnica, nas nomenclaturas. Exemplo bom é a palavra sujeito. Na voz primária, significa indivíduo qualquer; na secundária (jargão técnico), passa a indicar termo de oração, aquele que concorda com a forma verbal. Os terciários podem nascer na poesia tal qual: O amor é um sujeito petulante que nos arrebata. E os novidadeiros? Ah, esses merecem sessão à parte.

Primeiro uma introdução. A língua é dinâmica. Por isso, nunca vamos conseguir lançar um dicionário com todas as palavras de uma língua. Sempre que um dicionário é dado à luz, após longos anos de pesquisa, o coitado nasce morto! Por quê? Fica devendo um montão de novas palavras que surgiram durante sua produção.

 

Lousa com ABC

 

Por força dessa dinâmica da língua, palavras nascem, crescem, desaparecem, retornam, mudam e *desmudam. Palavras nascem, em especial nas descobertas, telefone, smartfone, supersônico, parapente. Palavras crescem como telefonia, telefônica, telefonista. Palavras desaparecem como asinha (depressa), botica (farmácia), trevudar (pagar imposto), alcaide (prefeito), ataúde (caixão). Palavras que retornam como quiproquó, chapoletada, fuzarca, carraspana, safanão. Palavras que mudam: sinistro significava esquerdo, fúnebre, funesto, e hoje ganha os significados maneiro, excelente, maravilhoso, espetacular. Algo formidável era o que inspira grande temor; que é perigoso; que tem aspecto terrificante; hoje é muito bom, muito bonito; admirável, excelente, magnífico. Palavras que desmudam são aquelas que recuperam significados antigos com valor renovado: ceroula (roupa interior), espartilho (corset, corselet). Busquei a informação de um amigo sobre palavras que desmudam, a que ele denominou Retroviagem:

Algumas dessas palavras voltaram ao português. Quem hoje come uma tempura (ou tempurá) de legumes está na verdade comendo um prato introduzido no Japão por jesuítas portugueses que, por não consumirem carne vermelha durante a Quaresma (em latim, ad tempora quadragesimae), criaram uma receita à base de vegetais e peixes. Em Portugal, há até um prato muito parecido com a tempura, embora também se conjeture que a palavra proveio de “tempero” ou “temperar”, o que tornaria o termo ainda mais vernáculo. (Aldo Bizzocchi)

Todavia, a língua tem regras para controlar a índole novidadeira dos falantes ou mesmo alguns que cismam que a língua está toda errada. Taí o Marcelo, Marmelo, Martelo que não me deixa mentir. Teimou em consertar a língua e quase perdeu seu pet. Vejam só um trechinho da história contada por Ruth Rocha:

Marcelo entrou em casa correndo.

- Papai, papai, embrasou a moradeira do Latildo!

O quê, menino? Não estou entendendo nada!

- A moradeira, papai, embrasou...

- Eu não sei o que é isso, Marcelo. Fala, direito!

- Embrasou tudo, papai, está uma branqueira danada!

Seu João percebia a aflição do filho, mas não entendia nada! Quando seu João chegou a entender do que Marcelo estava falando, já era tarde.

A casinha estava toda queimada. Era um montão de brasas.

O Godofredo gania baixinho...

É nisso que dá quem se mete a reinventar a língua, pensando que vai dar legitimidade às palavras, estabelecendo uma suposta relação entre o significado e o significante. Gente, Saussure já deu a dica faz tempo! Os nomes e as coisas não têm relação direta, pois se assim o fosse, todas as marias e os josés seriam meio que gêmeos! Ri não! Os nomes não lembram as coisas como queria Marcelo ao dizer que, se bola é redonda, porque o bolo, o bule etc. também não o são?

Mas não é só criança que inventa moda na língua.

Certa vez, numa daquelas chatiiiiiíssimas assembleias de professores (sou professora, lembra?) uma colega, querendo demonstrar autoridade, levantou-se e disse que tratássemos do assunto principal, porque ela não estava ali para discutir *sutilidades. Esqueci-me de explicar que uso o asterisco para indicar palavras inventadas, tá combinado? Sigamos.

Certo ministro — tão atrapalhado quanto o governo que o nomeou — depois de dizer que seu cachorro era um ser humano como outro qualquer, tentando explicar por que conduzia o cão em carro oficial. Noutra ocasião, se não me engano, numa entrevista televisionada, proferiu “O Fundo de Garantia para o trabalhador sempre foi imexível e continuará imexível.” Observe, caro leitor, a convicção com que ele criou a forma imexível. Posteriormente a uma chuva de críticas ao desafortunado ministro, o imortal Evanildo Bechara construiu forte defesa à capacidade neológica do ministro falastrão, extensiva a qualquer falante:

O distanciamento entre sistema e norma de realização se manifesta quando a “novidade” criada à luz do sistema inexiste na norma, na tradição já realizada e, por isso mesmo, não se encontra registrada nos dicionários e nas gramáticas. Foi o caso, entre nós, de imexível, nascido com procedimentos do sistema do mesmo modo que intocável, infalível, etc., mas não ainda realizado na norma.

(Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. 1999, p. 42)

Mas o tal ministro deixou outras pérolas, por exemplo quando disse: “Penso muito durante meus momentos de solidez¹”. Nesse caso, o criativo falante promoveu uma mudança terciária, no plano semântico. Mudanças essas que deveriam ficar reservadas aos artistas da palavra ou aos mestres da ciência, foi praticada pelo nosso personagem, fazendo com que solidez se tornasse sinônimo de solidão. Ou seria de seriedade? Vá lá saber!

Mas nosso cenário político tem trazido muitas inovações, quase todas trágicas. Porém, em meio a estas, surgiu uma um tanto cômica. O Presidente da República, num comunicado ao povo brasileiro, loquazmente falou:

— É preciso eliminar uma certa raivosidade, que muitas vezes permeia a consciência nacional. Nós precisamos ter paz, ter tranquilidade, e saber que nada vai impedir que o Brasil continue a trabalhar²

O maior mandatário do país é apresentado à população como Doutor em Ciências Jurídicas, aposentado da USP, logo, é um homem letrado. Justamente por isso é que sua criatividade lexical se tornou objeto de gozação. Até porque há uma palavra mais antiga e popular, que é a base com que ele criou seu neologismo: raiva. Todavia, a emoção da fala pública parece mexer com os brios dos sujeitos e, nessa hora, tropeçam nas palavras, esquecem formas usuais e vão buscar, no baú de sua memória linguística, pedaços de palavras com que constroem o seu monstrinho desnecessário. Afinal de contas, raiva é muito mais raivosa que raivosidade. Como ele é um homem da terceira idade, vamos lhe dar um desconto. Ou não?

Depois dessa incursão por neologistas militantes (Odorico, que me perdoe), vamos retomar a língua como tesouro, como emblema, como aconchego.

 

charge de Guimarães Rosa feito com as letras de seu nome

 

Passeando pela internet e visitando páginas que tratam de nossos grandes escritores e poetas, encontrei um blog sobre Guimarães Rosa e de lá extraí os exemplos de criações neológicas (não sei se você sabe, mas o autor de “Famigerado” pode ser considerado o rei dos neologismos!). Portanto, Rosa é um novidadeiro no melhor sentido do termo.

Enxadachim Designa um trabalhador do campo, que luta pela sobrevivência. A palavra reúne “enxada” e “espadachim”.

Taurophtongo Significa mugido, sendo a palavra uma junção de dois termos gregos, relativos a touro (táuros) e ao som da sala (phtoggos).

Embriagatinhar A mistura de “embriagado” e “(en)gatinhar” serve para designar uma pessoa que, de tão bêbada, chega a engatinhar.

Velvo Adaptação do inglês velvet, que significa “veludo”. Na linguagem de Guimarães Rosa, é o nome dado para uma planta de folhas aveludadas.

Circuntristeza Como a própria palavra sugere, refere-se à “tristeza circundante”. Ficou para o final por ser o meu neologismo favorito. (Grifos do blogueiro)³

Assim como o blogueiro consultado, talvez algum desses neologismos seja útil para você, qualquer dia desses…

Mesmo que não o sejam, creio que já pode concluir que criar palavras não é proibido, porém, há que se observar o momento oportuno para exercer a criatividade.

Deixo então para vocês um poema-exemplo de Manuel Bandeira:

Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda. 
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.

(Manuel Bandeira, In Belo, belo. 1948)

E me despeço dessa *crôniqueta de hoje, desejando-lhe que a saboreiem *leiturosamente! Até a próxima!

*Darcilia Simões é professora associada do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), vice-presidente da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP), coordenadora do Laboratório de Semiótica (LABSEM) e das Publicações Dialogarts. Lidera o GrPesq Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT)- Base CNPq. Suas pesquisas privilegiam o ensino da língua portuguesa, com foco principal na iconicidade e na linguística aplicada. Ela também é editora da revista Caderno Seminal que você pode acessar aqui. Contato: darcilia.simoes@pq.cnpq.br

 

Referências

BIZZOCCHI, A. (2013). Palavras que não voltam. Língua Portuguesa, ano 8, n.º 87, janeiro., http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo122.asp.

Gil, G. (1967). Lunik-9. In ______. Faixa 3. Louvação. São Paulo, Unimar Music.

ROCHA, R. (1976). Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. Rio de Janeiro: Salamandra .

¹ http://www.frasesfamosas.com.br/frases-de/antonio-rogerio-magri/ Acesso em 03.Jul.2017

² https://oglobo.globo.com/brasil/temer-critica-embate-permanente-pede-fim...  Acesso em 03.Jul.2017.

³ https://livrolevesolto.wordpress.com/2014/11/19/nonada-circuntristeza-en... Acesso em 03.Jul.2017.

 

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