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O patrão mandou falar com a língua enrolada!

Quando eu era criança, meu pai dizia: — Filha, estude para poder ter um bom emprego quando crescer e não passar pelas dificuldades que nós passamos hoje, porque eu e sua mãe não tivemos condições de estudar.

Meu pai, para mim, era como um oráculo: muito sábio e capaz de vaticínios importantes.

Em certa ocasião, fui convidada a participar de um concurso de redação. Passei dias e dias ensaiando a escrita com a ajuda de meu pai (que não teve estudo regular, mas era um autodidata, especialmente no que tange ao domínio da língua portuguesa). Chegando o dia do certame, lá fui eu, assustada e temerosa, pois agora tinha dois compromissos: um perante meu pai; outro em relação ao concurso em si.

Começava então meu descrédito nas ações humanas. Terminada minha produção do texto, fiquei estupefata por exigirem que fosse entregue também o rascunho. Apesar dos meus 15 anos de idade, eu entendi que o rascunho era o recibo de minha produção. Insisti à toa. Ficaram com ele. Fui para casa aborrecida e preocupada. Comentei com meu pai, e ele disse: —Minha filha, regras são feitas para ser cumpridas. —Mas eu achei aquela regra perigosa! Alguns dias depois, sai o resultado do concurso. No jornal publicaram o texto premiado. Era o meu! No entanto, o nome do autor era outro. Que decepção! Conversei com meu pai para saber se havia algo a fazer porque eu me senti roubada. Foi então que meu pai me fez constatar o que eu pré-sabia: o rascunho seria o único meio de comprovar que o texto vencedor era o meu. Mas cadê o rascunho?

pessoa escrevendo em um caderno com um lápis

 

Comportamento humano

Essa digressão seria um preâmbulo para o efetivo tema do presente texto: o que se lê nos jornais e as mudanças nas palavras e nos costumes. Ultimamente, navegando pelos jornais online, vivo tomando sustos diários. Aparecem notícias que nos remetem para mundos nunca dantes navegados. Não apenas porque o acesso doméstico à internet seja um fenômeno relativamente recente, mas principalmente pelo teor das notícias.

Recordando Drummond que, em 1975, publicava pela José Olympio “De notícias & não notícias se faz a crônica”, ative-me aos três primeiros temas do livro: nacional, internacional e política, o que faz o livro se assemelhar aos jornais. Entretanto, felizmente não se tratavam de simples relatos de fatos reais, mas formas poéticas e bem-humoradas de falar do cotidiano.

Entre a realidade e a ficção, Drummond nos conduzia pelas páginas de seus escritos. O maior capítulo (se assim posso denominar) desse livro contemplava o tema comportamento. Ali focalizou, por exemplo, a mentira, as palavras e as formas de tratamento, nas quais me inspirei para escrever minha crônica de hoje.  

Referindo-se a formas usadas para distinguir celebridades, ou excelências (como preferiu Drummond), relembra expressões como: Legal paca. É o suco! Bacana. Bacanérrimo! E outras que se combinavam com gestos como: É da pontinha! Daqui, ó! Essas expressões metafórico-metonímicas correspondiam a outras mais sofisticadas como: esplêndido, sensacional, notável, formidável, fenomenal, delícia; ao lado de outras mais populares em certas épocas, tais quais: supimpa (datação duvidosa), batuta (1871), cutuba (1914), entre outras.

Para objetivar duas expressões, eis duas figuras bem icônicas:

Da pontinha!

Daqui ó!

Imagem de mulher fazendo sinal de OK e a legenda "Da pontinha" e "Daqui ó"

É preciso haver entendimento!

 

Valores mudam

A leitura do contexto sociocultural carece de uma instrumentalização mais forte, mais significativa e, consequentemente, mais consciente. Um país que possui a abundância de leis como o Brasil e que apregoa em seus diplomas legais que é proibido ignorar a lei, comporta-se como um "país de brincadeira", onde a quantidade de leis (que proliferam diariamente como o aedes egypti) é seguida de uma outra quantidade de produtos hermenêutico-jurídicos que garantem para a elite o descumprimento daquelas, ao lado da demonstração de sua eficácia quando detém uma mulher que roubou uma lata de leite em pó ou um pacote de fraldas, ou mesmo um crédulo na fitoterapia que resolve descascar um pedacinho de uma árvore para fazer um chá-remédio para a esposa enferma. Vejam-se as manchetes:

A despeito das datas dessas manchetes, tratam-se de fatos que se repetem quase que diariamente.

Em contraponto com o rigor judiciário apregoado, o Presidente da República assina documentos sem ler (crime de responsabilidade), juízes de Direito se envolvem em casos de prostituição infantil (corrupção de menores), governadores e prefeitos tornam-se especialistas em malversação de verbas públicas (peculato) e juntamente com a Presidência criam mensalões, petróleos, enfim, propinodutos.

Sobre crimes de responsabilidade, por exemplo, pesquisei e fiquei impressionada com a data de sua criação, porque esse tipo penal até hoje é questionado quando a algum governante é imputada tal prática delituosa.

Art. 308. Este Código não compreende: 1º Os crimes de responsabilidade dos Ministros, e Conselheiros de Estado, os quais serão punidos com as penas estabelecidas na lei respectiva.

Na esteira da Lei de 1827, o Código Criminal de 1830 versava sobre os Ministros e Conselheiros do Estado (não sobre o Imperador – vigorava na época a premissa de que o rei não erra), como eventuais autores do crime de responsabilidade.

Mais tarde, o "Código Penal dos Estados Unidos do Brasil" de 1890 inovava ao tratar dos crimes de responsabilidade aplicáveis ao Presidente da República (...) (Leonardo Pantaleão, “Uma análise técnica na utilização do vocábulo crime para tais condutas de agentes públicos”. Quarta-feira, 12 de julho de 2017)

É possível inferir que as cominações legais podem existir há tempos, mas daí a serem punidas devidamente, a distância é imensa. Segundo Cícero (Marco Túlio Cícero — 106/43 a.C.) advogado, político, escritor, orador e filósofo da República Romana, “mudam-se os tempos, mudam-se os costumes!” Eu acrescentaria: ultimamente para pior!

Imagem de jogo de palavras

 

Significados mudam

Assim sendo, antigamente, as celebridades (ou excelências como disse Drummond na crônica em foco) eram pessoas fenomenais que causavam espanto sociocultural ou político. Por isso, Thomas Edson, Einstein, Currie,, Santos Dumont, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas etc. tornaram-se celebridades pelas invenções que melhoraram a vida em sociedade. Hoje, jogador de futebol, cantor/a de pagode ou funk, gente que participa de reality show etc.  são qualificados como heróis e heroínas, da noite para o dia, sem deixar contribuições aferíveis para a melhoria da qualidade de vida, senão a deles próprios. Ao emergir na vida social, uma celebridade afeta a vida dos sujeitos que a celebram e suscita, portanto, reconhecimentos, projeções, identificações e também rejeições. Estas decorrem de um processo de avaliação do que os tais fizeram, em confronto com o que outros fizeram e fazem sem qualquer reconhecimento.

Exemplo significativo é o do ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno, que continua ocupando a cena pública contemporânea, mesmo quando fala bobagens: “não se faz Copa com hospital”.

Mais dois exemplos:

Nascido em Brasília, Daniel Matsunaga é filho de pai japonês e mãe brasileira. Aos 16 anos, foi para as Filipinas tentar a vida de modelo e deu certo. Por lá, venceu um reality show, fez trabalhos de cantor, modelo e ator. O jovem virou uma celebridade tanto que tem cerca de 1,6 milhão seguidores no Instagram. (09/07/2017)

A vida dos entregadores mudou. Henrique Gomes, de 35 anos, e Fernando da Silva, de 26, de um dia para outro se tornaram celebridades. É só o veículo deixar o depósito, no Engenho de Dentro, para o assédio (no bom sentido) começar. (Publicado em17/03/17) 

Como se pode ver, o conceito de celebridade mudou e muito!

Dicionário Houaiss registra no verbete celebridade (entrada datada de 1600): lat. ‘celebrìtas, átis' grande número, solenidade, fama, reputação

■ substantivo feminino

1. qualidade do que é célebre

2. solenidade que caracteriza uma cerimônia pública; celebração

3. reputação bem estabelecida; fama, notabilidade, renome

Ex.: a c. daquela família

4. Derivação: por metonímia.

pessoa célebre, afamada, ilustre

Ex.: era frequente receber celebridades em sua residência

5. Uso: informal.

o que é incomum ou extravagante

O uso informal, que é bem mais recente, ganhou do uso solene. Festejar a descoberta da cura do diabetes não dá tanto ibope quanto um gol do mengão! Isso comprova que a língua é, de fato, feita pelo povo. É o povo quem determina o que passam a significar as palavras.

Eis alguns exemplos extraídos de um blog bem-humorado:

“AÇUCAREIRO - Vendedor de açúcar com preço acima do normal. BACANAL - Reunião de bacanas. CÁLICE - Ordem para manter a boca fechada. CANGURU - Líder espiritual de cães. DEPRESSÃO - Espécie de panela. DETERGENTE - Ato de deter algum suspeito. ESFERA -Animal que deixou de ser feroz. EVENTO - Constatação de que não é um furacão. OBSCURO - Absorvente OB de cor preta. PSICOPATA - Veterinário especialista em doenças mentais de patas. RAZÃO - Lago muito extenso, porém pouco profundo. RODAPÉ - Alguém que não tem mais carro. ” (In Ande e Limpe)

Alguns leitores hão de se espantar com a mudança do tom de minha crônica. Mas acontece que ninguém é de ferro! O cotidiano nacional, em especial o do Rio de Janeiro já nos afeta negativamente, por isso, sinto-me na obrigação de nos (incluo-me, é claro!) fazer rir um pouco.

 

Expressões mudam

As palavras representam nossa visão de mundo, consequentemente, a leitura crítica de palavras, expressões ou mesmo termos técnicos, considerando o tempo em que foram cunhados, é uma forma de acompanhar a evolução do pensamento humano.

Alguns vão considerar esta crônica formidável. Se forem pessoas maiores de 60 anos, usariam a acepção “1. Obsol. Que inspira grande temor; que é perigoso; que tem aspecto terrificante. 2. Que é acima do comum pela força, pelo tamanho, pela intensidade; descomunal, colossal: ” [Houaiss, s.u.]. Os mais jovens, o traduzirão como 4. Que desperta respeito, admiração ou entusiasmo.  5. Bras. Muito bom, muito bonito; admirável, excelente, magnífico. ” [Houaiss, s.u.].

A expansão cada vez mais forte da língua inglesa como business language (língua de negócios) tem promovido um fascínio cada vez maior pelas formas dessa língua. Um dos resultados da prevalência do inglês sobre outras línguas, em especial sobre o português, é a importação direta de formas estrangeiras (não apenas inglesas) que acabam por demonstrar o quanto se desconhece de nossa rica língua portuguesa. Eis alguns exemplos:

 

 Formas em uso  Formas preexistentes Formas-base estrangeiras  
 Acreditação  Credenciamento

Acreditation (inglês)(comprovação de responsabilidade e competência)

 Empoderamento  Autonomia, autoestima

Empowerment (inglês)(Conceito originário na administração de empresas)

 Expertise*  Especialidade, competência, perícia Expertise (francês) 
 Performance*  Atuação, desempenho Performance 

 

As formas em uso não trazem novos traços semânticos a observar, senão emprestam ao discurso certa pompa e circunstância que ilude o interlocutor; e assim vão “dourando pílulas” que, objetivamente não são mais que adornos verbais para objetos de pouca valia. Chamo então ao texto uma música que retrata de modo caricatural a força da língua estrangeira sobre o vernáculo, a partir de uma metáfora em que os Estados Unidos é o patrão.

 

O Patrão Mandou

O patrão mandou cantar com a língua enrolada.

Everybody macacada. Everybody macacada
E também mandou servir uísque na feijoada.
Do you like this, macacada? Do you like this, macacada?
E ainda mandou tirar nosso samba da parada.
Very good macacada. Very good macacada.

Não sei o que é que o patrão tem debaixo da cartola
que a gente não se solta, ta grudado feito cola.
No fim das contas o patrão manda e desmanda
e ainda faz do Rei Pelé mais um garoto-propaganda.

O patrão mandou cantar com a língua enrolada.
Everybody macacada. Everybody macacada
E também mandou servir uísque na feijoada.
Do you like this, macacada? Do you like this, macacada?
E ainda mandou tirar nosso samba da parada.
Very good macacada. Very good macacada.

O patrão é fogo! Ele é quem dá as cartas quando o jogo
Tá metendo sempre o bico no fubá, qual tico-tico
No troca-troca o patrão que é mais rico, já levou o Rivelino e vem depois buscar o Zico.

O patrão mandou cantar com a língua enrolada.
Everybody macacada. Everybody macacada
E também mandou servir uísque na feijoada.
Do you like this, macacada? Do you like this, macacada?
E ainda mandou tirar nosso samba da parada.
Very good macacada. Very good macacada.

 

Assim, ideias e palavras vão se transformando através dos tempos. Palavras desaparecem. Palavras nascem. Palavras se modificam. Todavia, o que não se pode “deixar solto” é o uso leviano de palavras e expressões que funcionam como regras ou modelos sociais, enaltecendo quem não merece e deixando no ostracismo grandes personagens e produções que efetivamente promovem o aperfeiçoamento da sociedade.  

A língua é uma representação social que precisa ser considerada como símbolo de uma nação. A partir do momento em que se abre mão da língua nacional em prol de uma língua estrangeira, está-se abrindo a guarda para o desmonte de uma nacionalidade. Será que vale a pena falar com a língua enrolada?

 

*Darcilia Simões é professora associada do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), vice-presidente da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP), coordenadora do Laboratório de Semiótica (LABSEM) e das Publicações Dialogarts. Lidera o GrPesq Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT)- Base CNPq. Suas pesquisas privilegiam o ensino da língua portuguesa, com foco principal na iconicidade e na linguística aplicada. Ela também é editora da revista Caderno Seminal que você pode acessar aqui. Contato: darcilia.simoes@pq.cnpq.br

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