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O mundo do conhecimento global adquirido

De acordo com Alvin Toffler (1928-2016), pesquisador americano especializado em revolução tecnológica e singularidade, desde a década de 1970 estamos a viver uma “Revolução da Informação” que se caracteriza, essencialmente, pela hegemonia do conhecimento.

Apesar disso, o conhecimento não é um tema novo na história humana. Na antiga Grécia, Platão já reconhecia a relevância do conhecimento, referindo que apenas através dele seria possível captar a existência do mundo sensível – conhecido através dos sentidos – e do mundo inteligível – conhecido somente através da razão.

Na perspectiva de Platão, existem dois mundos:

  1. O mundo da experiência, em constante mutação e gerido pelos sentidos, não podendo transmitir um conhecimento totalmente verdadeiro;
  2. O mundo imutável, mundo inteligível, onde se encontram as ideias realmente verdadeiras, partindo de recordações.

Na mesma linha de pensamento, Descartes considera que o indivíduo possui três tipos de ideias:

  1. Factícias: ficções do espírito humano, pela imaginação e invenção a partir do real;
  2. Adventícias: geradas a partir do exterior, de objetos e sensações, não garantindo veracidade;
  3. Inatas: originárias da razão, são as que fornecem o verdadeiro conhecimento.

As teorias de Platão sobre conhecimento ficaram conhecidas como racionalismo transcendente. Isto significa que as ideias se originam a partir de uma experiência humana pré-terrena. Já as teorias de Descartes ficaram conhecidas como racionalismo imanente ou inatista, considerando que as ideias inatas não resultam da contemplação de um universo inteligível.

Igualmente, Karl Popper (1902-1994), renomado filósofo da ciência austríaco, também considera o conhecimento científico objetivo e a sua evolução racional. No entanto, segundo Popper, nunca poderemos saber se uma teoria científica é literalmente verdadeira, podemos, apenas, assegurar-nos que, até certa altura, não foi provada como falsa ou errada. Surge, assim, a racionalidade crítica, quando se adota uma atitude crítica perante teorias, procurando descobrir a sua veracidade e garantir o desenvolvimento do próprio conhecimento e da Ciência.

Por outras palavras, o indivíduo, ao tentar se aproximar da verdade e da razão, aproxima-se, também, do fundamento da Ciência. Isso porque ao ser confirmada verdadeira, a teoria corresponderá aos fatos e descreverá a realidade das coisas, mantendo-se independente de crenças, refletindo uma Ciência objetiva, tal como defende Popper.

Assim, a Ciência tende a progredir, devido à sua constante busca pela verdade e pelo conhecimento, embora, como já referimos, a “verdade última” seja circunstancial e inalcançável.

Imagem de pessoa lendo com uma lupa e com lápis na mão

Nesse sentido, na história mais recente, o filósofo da ciência Thomas Kuhn (1922-1996) estudou o desenvolvimento histórico do pensamento racional humano, concluindo que uma teoria, por mais objetiva que seja, encontrará novos fundamentos para se alterar e constituir novas ideias no futuro.

Na lógica de Kuhn, o pensamento científico não é imutável, concluindo que as teorias, ao longo da História, foram substituídas por outras teorias e outras novas comprovaram-se verdadeiras. Como por exemplo:

  • O geocentrismo foi substituído pela teoria do heliocentrismo;
  • A teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin substituiu a de “uso e desuso” de Lamarck;
  • Albert Einstein propôs a teoria da relatividade que substituiu as teorias de Isaac Newton sobre o tempo e espaço.

É, com certeza, por estas razões que o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), em Crítica da Razão Pura, identifica a existência de um vínculo indissociável entre a razão e a liberdade que nos viria a conduzir à democracia e, por sua, vez ao uso público do conhecimento.

 

O conhecimento na democratização

A esse fato, também  não são estranhas a ascensão e expansão da economia capitalista de mercado (mercantil e oligopólico) e do Estado moderno (inicialmente Absolutista, depois Liberal e o Estado social)

Na Europa da Idade Média, por exemplo, segundo o sociólogo e filósofo alemão Jürgen Habermas, não existia uma esfera pública diferenciada: a esfera pública estava ligada à representação do status de reis e senhores. As figuras públicas se exibiam como representantes ou personificações de uma autoridade suprema ou algum poder superior. Tal esfera pública representativa atingiu a sua expressão mais simbólica na vida cortesã dos séculos XV e XVI. Mais tarde, foi, gradualmente, perdendo fulgor e propriedade com o desenvolvimento do capitalismo e com as mudanças jurídico-institucionais nas formas de poder político.

A mudança de paradigma, das sociedades tradicionais para as modernas, criou as condições para o surgimento de um novo tipo de esfera pública diferente da ordem feudal, na qual a reprodução material da sociedade estava subordinada aos controles políticos e ideológicos de autoridades que se legitimaram na época. Com o desdobramento do início do capitalismo, foram criadas as condições que possibilitaram o domínio privado sobre a reprodução social em geral. A partir de então, inaugurou-se um processo de diferenciação entre as esferas culturais, de valor decorrente de uma dinâmica endógena, do social, o que vai culminar na consolidação de uma outra vida pública: a esfera pública burguesa.

Concluindo, o conhecimento teve no passado, e tem no presente, um papel vital na liberdade e na democracia. Assim, se compreende os ataques que o conhecimento sofreu ao longo da sua história por regimes não democráticos. O dia 10 de maio de 1933 é disso um exemplo paradigmático, quando no auge da perseguição dos nazistas aos intelectuais e escritores, vários livros foram amontoados e queimados nas praças de cidades alemãs. Tudo o que fosse crítico ou se desviasse dos padrões impostos pelo regime era considerado inconveniente, censurado e destruído. Albert Einstein, Stefan Zweig, Heinrich e Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kästner, Erich Maria Remarque, Ricarda Huch, entre outros foram algumas das figuras mais proeminentes do conhecimento e da literatura perseguidas na época da Alemanha nazista.

Imagem de lâmpadas

 

Reflexões sobre o uso do conhecimento

Assim, se por um lado ao longo de séculos a razão e o conhecimento foram a solução de diversos problemas, conduzindo à liberdade e à democracia. Atualmente, o conhecimento está a colocar sérios desafios à sociedade contemporânea que merecem reflexões.

Por exemplo, vivemos um contexto de excesso de pessoas, quando comparado com os períodos das revoluções agrícola e industrial, intensivas em mão-de-obra, e a população mundial era diminuta. De acordo com a ONU, no ano 2000, a população mundial crescia então a um ritmo de 1,2 % (o equivalente a 77 milhões de pessoas) por ano. Isso representa um decréscimo da taxa de crescimento em relação ao seu nível em 1990, sobretudo devido à baixa nas taxas de natalidade em países desenvolvidos.

Com efeito, as soluções tecnológicas dispensam as pessoas do mercado de trabalho, sobressaindo o problema global do desemprego estrutural e se colocando a questão dramática seguinte: o que fazer com tantas pessoas?

A sociedade contemporânea, a par do que defendem certos teóricos, encontra-se no auge de uma metamorfose líquida percetível (ou seja, quando tudo se esvai com facilidade, sem vínculo ou continuidade), apresentando-se como um novo tipo de modernidade e globalização extrema. Destacamos o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), na sua obra Europa Líquida, e filósofo ocidental sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência para debater o tema.

A sociedade atual, tanto ocidental quanto oriental, é caracterizada por Han como “sociedade da transparência”, ao passo que para Bauman é uma “sociedade líquida”. Para Han, na sociedade da transparência há a exposição excessiva das pessoas e controle do ambiente, que por sua vez gera uma negatividade implícita que pode podar ideais utópicos devido ao controle do que se é exposto. A fase líquida da modernidade corresponde à efemeridade e vulnerabilidade, não permitindo a consolidação cultural, isto é, a solidificação, o que torna complicada a inovação e consolidação de novas ideias e caminhos para problemas sérios.

Acresce que, o contínuo aumento populacional e o aumento da expectativa de vida, traz consequências. A mais abordada é a questão da escassez de alimentos. O aumento da população e desenvolvimento dos países, aumenta também a poluição produzida e, se já com a população atual os problemas ambientais relacionados com a poluição são inúmeros, então deduz-se que serão muito piores com uma população ainda maior, produzindo cada vez mais desperdícios implicando na degradação de muitos ecossistemas.

O aumento populacional desenfreado, em comparação com uma área habitável reduzida, faz com que comecem a surgir populações em condições precárias de saúde, facilmente suscetíveis a catástrofes.

Concluímos que o conhecimento é, sem dúvida, o instrumento mais poderoso do mundo, devendo ser sempre a solução e nunca a causa dos problemas, que como pudemos ver são vários. Ou seja, essa arma poderosa deve ser usada com cuidado e reflexão para não gerar consequências mais graves.

 

Referências

TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. Lisboa: Livros do Brasil, 1999.

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 1998.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

ARATO, Andrew; COHEN, Jean. Sociedad Civil e teoría social. In: AVRITZER, Leonardo. Sociedade Civil e democratização. Belo Horizonte: Del Rey, 1994, pgs. 148-182

COHEN, Jean; ARATO, Andrew. Civil society and political theory. Cambridge/Mass.: MIT Press, 1992.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

BAUMAN, Zygmunt. Europa Líquida, Funchal: Nova Delphi, 2013.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência, Lisboa: Relógio D’Água, 2014

 

**Eduardo Leite é doutor em administração pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Portugal e editor da E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP.

 

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