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E por falar em saudade...

NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO 

Um sabiá na palmeira, longe. 
Estas aves cantam um outro canto. 
O céu cintila sobre flores úmidas. 
Vozes na mata, e o maior amor. 

Só, na noite, seria feliz:

um sabiá, na palmeira, longe. 
(Carlos Drummond de Andrade) 

De repente, senti saudades! Não de pessoas, mas de tempos...

Então visitei Drummond, e nesses poucos versos de sua Nova Canção do Exílio, busquei abrigo para pensar. Exilei-me do hoje que está muito tumultuado. Ainda não aceitei o convite do amanhã por conta de sua incerteza.

Então exilei-me na arte, especialmente na arte da palavra: a Literatura.

Nesse exílio encontrei lugares em que a paisagem era tão amiga! Encontrei paragens que me faziam questionar Guimarães Rosa quando afirma que “Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar.” Segui andando pelas páginas e fui encontrando lamentos, desalentos, descompassos, indagações... Continuei a entrar pelas páginas umas assustadoras, outras cativantes, que me envolviam como uma teia cuja aranha era meu pensamento.

Visitei um homem que desejava voar, uma mulher da noite que queria casar, um herói covarde e sem nenhum caráter... e tudo isso me espantava e me fazia pensar no hoje. Um hoje incerto. Um hoje estranho. Um hoje em que as pessoas nem se conhecem, mas não se gostam.

A noite desce, e os pensamentos fervem. A cidade quase dorme, todavia há entes que perambulam pelas ruas à espreita para cometer um malfeito. Há seres na penumbra da madrugada, envolvidos em lama, pó, fumaça... Ébrios de vida mal vivida. Ardilosos em busca de uma presa. Essa é uma cidade com que jamais sonhei.

Então exilei-me nos versos: “Em cismar, sozinho, à noite, / Mais prazer eu encontro lá; / Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá”. Gonçalves Dias também sonhava com um lugar fantástico: sua terra, nossa terra.  Era a Canção do Exílio!

Mas os versos também eram inquietos, e o eu lírico estava triste. Essa tristeza brotava de uma paixão antiga, ancestral. O amor pelo torrão natal que chega a gerar imagens de um conúbio espetacular. Então indago: Onde anda você? E é o poetinha (epíteto carinhoso atribuído a Vinícius de Moraes, por seu jeito despojado de ser) quem vem em meu socorro com seus versos: “E por falar em paixão / Em razão de viver / Você bem que podia me aparecer / Nesses mesmos lugares / Na noite, nos bares / Onde anda você.” Vinícius fala com a amada, uma mulher; no entanto, para mim, o você se refere a um tempo talvez perdido, em que as pessoas conversavam nas calçadas de suas casas nos fins de tarde, em que se podia andar nas ruas sem medo, em que crianças e jovens respeitavam os mais velhos, em que os professores eram tão importantes quanto os próprios pais, em que maquiagem era coisa de moça, em que namorar e “transar” só ocorriam na idade adulta etc.

 

 

Naquele tempo (sim, se mostra longínquo!) não tinha bala perdida, mas bala de hortelã, bala-puxa, bala quebra-queixo...

Naquele tempo não se roubava celular, carteira ou jóias, roubavam-se beijos!

Naquele doce tempo, quando alguém entrava na onda era pra nadar. Fazer fumaça era acender o fogão para cozinhar.

Muito preocupada, exilei-me na infância, com  fragmento do poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu.:

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Como são belos os dias

Do despontar da existência!

- Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é - lago sereno,

O céu - um manto azulado,

O mundo - um sonho dourado,

A vida - um hino d'amor!

Essas duas estrofes de Casimiro de Abreu ecoaram em meu peito. Meus oito anos? Não apenas. Apesar de dificuldades muitas, infância e juventude me mandam lembranças airosas. A peteca, a bola, o violão... As cantorias de fim de tarde. As brincadeiras de adivinhar. Como eram doces os dias de um bairro de periferia, com portas e janelas sempre abertas, com bom dia garantido a cada manhã.

No tempo de escola, o uniforme era motivo de orgulho, e as normalistas ostentavam suas estrelinhas, ícones do tempo que faltava para a diplomação. A ordem unida antes de entrar em sala; o hino nacional cantado em posição de sentido ante a bandeira nacional que lentamente escalava o mastro; os inspetores de disciplina apreciando a postura da meninada durante o entoar do hino: - Vocês não devem se mexer durante o hino, porque é hora de grande respeito, ouviram?

Nós reclamávamos às escondidas, mas no fundo sabíamos que alguém se preocupava conosco. Vigiavam nossas roupas, nossa postura, nossas notas, nossa frequência... e o resultado era uma festa ao receber a notícia: Aprovado!

Mas esse tempo ficou lá longe, onde cantavam os sabiás de Gonçalves Dias e de Drummond.

Não é por acaso que a palavra saudade só existe na língua portuguesa, e é cantada em verso e prosa; poetas e compositores vêm-na cantando ao longo dos tempos, cedendo-nos suas vozes como acalanto de nossa saudade, seja ela qual for.

Eis que minha saudade entoa versos da música "No rancho fundo" (1939) de Ari Barroso e Lamartine Babo: “No rancho fundo/ Bem pra lá do fim do mundo / Onde a dor e a saudade / Contam coisas da cidade / No rancho fundo / De olhar triste e profundo / Um moreno canta as mágoas / Tendo os olhos rasos d'água”. São saudades doídas a do moreno e a minha.

Na busca de novo exílio, pedi colo a uma mulher, e ela me disse: “De que são feitos os dias? / De pequenos desejos / Vagarosas saudades.” Fragmento das
Silenciosas lembranças de Cecília Meireles que evocam a força e o vigor das palavras, por meio das quais tento sublimar minhas saudades e as transformo em beleza com a ajuda de Vinícius de Morais que cantarola assim: “E por falar em beleza / Onde anda a canção / Que se ouvia na noite / Dos bares de então / Onde a gente ficava / Onde a gente se amava / Em total solidão”.

Nos exílios dos tempos, algo ficou bem longe, no passado: as noitadas, as músicas, as danças, as conversas, os carinhos, as paixões... Esse era o cenário de um lugar amigo, hospitaleiro, acolhedor, solidário... Mas onde anda esse lugar? Pessoas que se encontravam, se abraçavam, se ajudavam... Onde estão essas pessoas?

A Resposta ao Tempo, pai das lembranças e ninho das saudades me chega na voz de Nana Caymmi: “Batidas na porta da frente / É o tempo / Eu bebo um pouquinho / Pra ter argumento / Mas fico sem jeito / Calado, ele ri / Ele zomba / Do quanto eu chorei / Porque sabe passar / E eu não sei / (...) Respondo que ele aprisiona / Eu liberto / Que ele adormece as paixões / Eu desperto / E o tempo se rói / Com inveja de mim / Me vigia querendo aprender / Como eu morro de amor / Pra tentar reviver / No fundo é uma eterna criança / Que não soube amadurecer / Eu posso, ele não vai poder / Me esquecer.”.

Eis a resposta da composição de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc na voz de Nana Caymmi:

 

 

*Darcilia Simões é professora associada do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), vice-presidente da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP), coordenadora do Laboratório de Semiótica (LABSEM) e das Publicações Dialogarts. Lidera o GrPesq Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT)- Base CNPq. Suas pesquisas privilegiam o ensino da língua portuguesa, com foco principal na iconicidade e na linguística aplicada. Ela também é editora da revista Caderno Seminal que você pode acessar aqui. Contato: darcilia.simoes@pq.cnpq.br

 

Referências:

ABREU, Casimiro de. "Meus oito anos". IN: “As Primaveras”, 1859.

ANDRADE, Carlos Drummond. "Nova Canção do Exílio". In: A Rosa do Povo. 1945

BASTOS, Cristóvão; BLANC, Aldir. "Resposta ao tempo" (Nana Caymmi). Faixa 1. CD. EMI Music. 1998

DIAS, Antônio Gonçalves. "Canção do Exílio". IN: Primeiros cantos. 1847.

MORAES, Vinícius de; “Onde Anda Você”. IN: Vinicius / Toquinho. Álbum. Faixa 2. Phillips. 1975.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. [1953]. Rio de Janeiro: José Olympio. 2001. p. 33

 

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