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A Babel Contemporânea

Nossa colunista Darcilia Simões discute sobre os desencontros da língua, com referências a músicas e casos recentes.¹

 

"O que quer, o que pode essa língua?”. Esse verso de Caetano Veloso (“Língua”, 1984) vem como um mote para uma reflexão sobre a língua e seu poder. Em tempos em que as relações sociais se mostram tão conturbadas, a comunicação ganha destaque, e o verbo (sentido bíblico), criador de todas as coisas, volta a ser objeto de união e desunião, como no episódio da Torre de Babel.  Torre construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. Pretendiam-na tão alta que alcançasse o céu. A soberba dos homens provocou a ira de Deus que, como castigo, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra (cf. Antigo Testamento, Livro do Gênesis 11,1-9).

 

 

Na verdade, podemos entender a Torre de Babel como um ícone da dispersão dos homens em função da língua. Babel é o topônimo da cidade onde se construía a polêmica torre, também significa confusão em hebraico ou "porta de Deus", segundo o mito de Babel cuja construção teria sido inspirada na torre do templo de Marduk, deus tutelar da Babilônia (ROUX, 1990). Babel é entrada de dicionário registrada como sentido figurado: Substantivo feminino. Fig. 1.Confusão de vozes ou de línguas. 2. Desordem, confusão, tumulto, babilônia. 3. Algazarra, balbúrdia, vozearia, vozeria, vozerio, vozeada.” [Aurélio, s.u.].

Assim, reunindo a ideia de língua em Velô e as noções possíveis para babel, não é difícil chegar-se ao porquê de um salto tão largo: da década de 1980 para a Antiguidade Clássica (Babilônia, cujo apogeu é datado do século VI a.C.), uma vez que a comunicação é, ao mesmo tempo, uma das grandes invenções e um dos grandes problemas vivenciados pelos homens. Desde as cavernas, sente-se a necessidade de partilhar experiências.

 

Desenho representando as primeiras manifestações

 

Muitos milênios depois, o homem se encontra enredado em múltiplas formas de comunicação, com línguas, códigos e dispositivos diversos, cada vez mais sofisticados e mais céleres. Todavia, a (in)compreensão das mensagens vem, assustadoramente,  transformando-se na destruição da harmonia e da paz entre os homens. Destacando-se a língua como o sistema semiótico mais complexo e, por conseguinte, mais rico, é ela também o meio de comunicação mais problemático, pois nem os falantes de uma mesma língua se entendem suficientemente, de modo a não gerar conflitos. Tal ideia foi muito bem ilustrada pelo conjunto Barão Vermelho, em meados dos anos de 1980, cujo título da canção é exatamente o mote deste texto: “Torre de Babel” (Frejat, Guto Goffi e Ezequiel Neves).

 

Se eu chego você tá saindo

A gente ama odiando

Mas não me deixe sozinho me dá pão com veneno,

jurando fidelidade

Mas sua verdade não me engana

Nesse termo de maldade

Que piração

Eu tô na terra ou no céu

Ninguém se entende

Nessa torre de babel

O mundo tá acabando, não vai sobrar quase nada

A nossa hora tá chegando

E ainda fazem piada

Apertando o cerco

Você se desespera

Não há remédio, você tá na guerra

Que piração

Eu tô na terra ou no céu

Ninguém se entende

Nessa Torre de Babel

Ainda no âmbito musical, vejamos este exemplo interessante: “Quantos homens eram inverno/ Outros verão / Outonos caindo secos / No solo da minha mão” (Zé Ramalho, “Frevo mulher”). Nesses versos, a palavra verão é a “pegadinha”. Pois o seu emprego em proximidade com inverno e outonos conduz o raciocínio para verão como estação do ano. No entanto, ao ler os três versos “Outros verão / Outonos caindo secos/ No solo da minha mão”, torna-se perceptível que se trata de uma flexão do verbo ver no futuro do presente. Assim sendo, para responder à questão semiótica em pauta, é preciso levar em conta o contexto imediato que envolve as formas da língua atualizadas nos textos, ou seja, há variáveis culturais e contextuais relevantes que determinam a interpretação. Rita Lee compôs uma música intitulada “Lady Babel”, na qual compara a incompreensão linguística provocada pelo evento de Babel à dificuldade de percepção das intenções femininas.  Rita Lee, na verdade, personifica a torre, uma metáfora da mulher, salientando que nem sempre o aparente é o óbvio: a alma feminina é algo a se descobrir, desvendar,

Como se já não bastassem as complicações na comunicação, o advento da rede mundial de computadores (World Wide Web ou www) veio a ser invenção paradoxal: ao mesmo tempo que aproxima, afasta os homens que, na pressa de dizer, se tornam agentes/pacientes de desentendimentos. O número de conflitos causados por trocas de mensagens digitais cresce assustadoramente. Reduzindo a questão ao sistema linguístico empregado, traz-se à cena a questão semiótica fundamental: por que isso significa o que significa?  

No entanto, não é só no campo digital que isso ocorre. Os mal-entendidos, as ofensas, quase sempre resultam de uma má interpretação. A dinâmica semântica, fenômeno presente em qualquer língua, não só enriquece as formas de expressão, como também se torna uma arma se empregada ou interpretada afoitamente. Observemos o ocorrido em uma conversa entre dois funcionários de uma empresa — “O problema é colocar papelão lá dentro do CMS [matéria-prima para a produção de embutidos] também, né?…”. O diálogo repercutiu nas redes sociais e resultou numa complicação grave. As palavras grifadas a seguir foram as responsáveis pelos dois entendimentos propostos para o trecho “colocar papelão lá dentro do CMS [matéria-prima para a produção de embutidos]”: (a) misturar papelão na feitura dos embutidos seria grave crime contra o consumidor e a saúde; (b) misturar papelão na embalagem dos embutidos.

Os semas (unidades mínimas do significado) inscritos nos signos em foco são: (a) papelão contém o sema não comestível e (b) embutidos, o sema comestível. A partir disso, foram produzidas as interpretações (ou manipulações) do significado da fala do funcionário. Os que acusam entendem que havia uma ordem de pôr papelão na produção do alimento; os que defendem explicavam que o papelão deveria entrar na embalagem do produto. Como nosso tema não é o de julgar procedimentos industriais, senão demonstrar a potência da língua e os perigos decorrentes do uso, o exemplo parece ser relevante como demonstração desses perigos.

 

Tirinha do Willtirando

 

Temos, então, que os ruídos de comunicação, segundo esquema de Jakobson (1960), não consideram, por exemplo, as diferenças ideológicas entre os interlocutores. Leituras distintas de um mesmo texto geram incompreensão, mal-entendidos, independentemente da complexidade do vocabulário ativado no texto. O princípio da iconicidade, observado pela semiótica e pelo funcionalismo, fornecem elementos que permitem ao analista identificar os pontos de conflito gerados pelo vocabulário atualizado na expressão. A chamada do Manaus Hoje cravou: “Meninas dão de quatro”. O cunho machista e sexual da manchete foi duramente criticado pela comunidade que acompanha futebol feminino.”A vitória da seleção feminina de futebol sobre a Rússia, de goleada, ganhou espaço na mídia em todo o país. Um jornal local optou por um trocadilho como manchete e tornou-se alvo de críticas. A expressão dão de quatro, usada denotativamente, ali se referia aos quatro gols, no entanto, mostrou-se ambígua e associável a uma interpretação conotativa de cunho sexual, portanto, desqualificante para as jogadoras do escrete feminino.

 

Tirianha de Nani Humor

 

Cientificamente, vem-se tentando provar que o ser humano tem uma predisposição natural para conhecer e dizer o mundo; porém, as maneiras como o faz passam por condicionamentos de ordem cognitiva, histórica e cultural. Daí se conclui que não há unidade, senão relevantes diferenças nas maneiras de perceber e dizer o mundo. Visando a testar essas diferenças de percepção e expressão, formulou-se a questão o que significa torre de babel? Elegeu-se, então, um pequeno grupo de pessoas, aleatoriamente escolhidas numa praça de uma cidade da periferia do Rio de Janeiro. As principais respostas foram: a) título de uma telenovela; b) confusão; c) torre construída na Antiguidade para chegar a Deus. Esses exemplos podem demonstrar que o nome da telenovela era o significado mais atual para o grupo da experiência. O entrevistador, que supunha ser predominante a noção do Gênesis — Babel como Porta do Céu —, pois tinha a hipótese de que os evangélicos predominavam no grupo entrevistado, não contava, por exemplo, com a variável de que a telenovela homônima está sendo reexibida na TV.

Nesse sentido, percebemos que a expressão humana precisa ser analisada em consonância com variáveis que a condicionam: as esferas de circulação, elementos constitutivos, seus sujeitos, interesses em disputa, atividades envolvidas, momento e lugar da enunciação. Entretanto, para que o falante se torne capaz de expressar-se e interpretar a expressão alheia, é indispensável expandir sua competência verbal. Uma vez imerso na Babel Contemporânea, o falante tem de estar apto a captar o que subjaz ao véu do texto. O tecido das palavras quase sempre é ladino. As palavras, segundo Drummond, “tem mil faces secretas sob a face neutra” (C.D.A. “A procura da poesia”). Conhecer essas faces é a astúcia que se pode desenvolver pelo estudo das línguas. Se são ardilosas as palavras na língua nativa, imagine-as na língua não nativa!

Um episódio entre interessante, engraçado e inconveniente foi, durante uma estada em Lisboa, ao mostrar a um transeunte o endereço a que desejava chegar e dizer-lhe “Eu gostaria de ir a esse endereço”. Havia a intenção de receber instruções para chegar ao local pretendido. Eis que a resposta foi “E o que está a impedi-la?”. Observe-se que a interpretação do uso de uma locução com uma forma verbal no futuro de pretérito (gostaria de ir) foi interpretada pelo falante lusitano como se houvesse um impedimento para tal. O que de fato o era: o desconhecimento da geografia local. Mas para o português, a expressão não foi assim compreendida, uma vez que não basta dominar os significados das palavras, é preciso saber empregá-las nos diferentes contextos.

 

 

É preciso concluir, porque o espaço assim determina. Logo, a Babel de nossos dias se realiza de diversas formas e em diversos contextos. Da dificuldade de apreensão de conteúdos nas aulas, passando pelas astúcias da enunciação publicitária e pelo quase sempre malicioso discurso político, chega-se às conversas cotidianas, face-a-face ou mediadas por equipamentos digitais entre outros, as quais alimentam a confusão de ideias e geram conflitos que às vezes têm final trágico.

Recomendo seguir o conselho dos seguintes versos aqui reiterados:

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?  (C.D.A. “A procura da poesia”)

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. “A procura da poesia". A rosa do povo. In: Reunião. 10 livros de poesia. 4 ed, p. 76. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio. versão 7.0 . São Paulo: Positivo, 2010.

FREJAT, GOFFI, G., NEVES, E. "Torre de BabelIn: Terceira faixa do LP Declare Guerra. WEA Records. 1986. 

LEE, Rita, "Lady Babel" In: Faixa 2 do Álbum de Estúdio Entradas e Bandeiras. Rita Lee &Tutti Frutti. Rio de Janeiro: Som Livre.1976.

RAMALHO, Zé. "Frevo Mulher" In: Zé Ramalho. A peleja do diabo com o dono do céu. Faixa 10. Estúdios CBS, Rio de Janeiro.1979.

ROUX, Georges. Mesopotâmia. Historia politica, economica y cultural. Madrid: Espanha: Ediciones AKAL , 1990.

¹ Este texto traz contribuições do Prof. Dr. Claudio Artur de Oliveira Rei, que vem pesquisando a música popular brasileira há alguns anos. Cf. http://lattes.cnpq.br/0216959741973137

 

*Darcilia Simões é professora associada do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), vice-presidente da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP), coordenadora do Laboratório de Semiótica (LABSEM) e das Publicações Dialogarts. Lidera o GrPesq Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT)- Base CNPq. Suas pesquisas privilegiam o ensino da língua portuguesa, com foco principal na iconicidade e na linguística aplicada. Ela também é editora da revista Caderno Seminal que você pode acessar aqui. Contato: darcilia.simoes@pq.cnpq.br

 

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